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Relatório Estratégico SR-001/2026 | Outubro de 2026.
Prof. Alejandro François de Montclair
Professor de Relações Internacionais e analista político da América Latina
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O Brasil, espelho de um mundo em transição
O Brasil chega ao segundo turno de sua eleição presidencial em um clima político cujas implicações ultrapassam amplamente as fronteiras da América do Sul. Em 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente em exercício e figura histórica da esquerda brasileira, enfrentará Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O primeiro turno, realizado em 4 de outubro, colocou Flávio Bolsonaro na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% obtidos por Lula, segundo os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral brasileiro. Como nenhum candidato alcançou mais da metade dos votos válidos, tornou-se necessário realizar um segundo turno. A diferença, superior a dois milhões de votos, revela uma disputa acirrada e uma expressiva capacidade de mobilização do campo conservador, sem permitir antecipar o desfecho da eleição.
Essa disputa é reveladora porque coloca frente a frente duas concepções concorrentes sobre o lugar do Brasil no mundo. Lula defende uma diplomacia comprometida com o multilateralismo, a cooperação entre os países do Sul Global e a preservação de uma margem de autonomia nas relações com as grandes potências. Flávio Bolsonaro segue uma orientação conservadora mais próxima de Donald Trump e potencialmente favorável a uma aproximação política com Washington. As divergências também dizem respeito ao papel do Estado, às políticas sociais, à segurança, às prioridades econômicas e à própria definição da soberania nacional. Essas questões assumem especial importância em um país que mantém relações comerciais de grande dimensão com a China, ao mesmo tempo que permanece profundamente vinculado aos Estados Unidos por meio do comércio, dos investimentos e dos interesses estratégicos. A análise publicada pela Reuters em 9 de outubro de 2026 destaca, em particular, as implicações da eleição para as relações comerciais, os minerais críticos e os equilíbrios diplomáticos entre Brasília, Washington e Pequim.
A campanha acontece em um contexto no qual a disputa eleitoral já não se limita à comparação entre programas de governo. A confiança nas instituições, a percepção da segurança, o custo de vida, as transformações do trabalho, os valores culturais e a influência das redes digitais participam da formação das escolhas políticas. Os eleitores podem apoiar um candidato por convicção ideológica, punir o governo em exercício, buscar uma ruptura ou privilegiar uma promessa de eficiência. Essas motivações podem coexistir sem serem necessariamente idênticas. Reduzir o voto a uma oposição mecânica entre esquerda e direita significaria ignorar as preocupações concretas que estruturam os comportamentos eleitorais.
O Brasil oferece, assim, um ponto de observação privilegiado para examinar uma questão mais ampla: estamos diante de uma reconfiguração duradoura dos modelos políticos ou de uma sucessão de respostas nacionais a crises econômicas, sociais, institucionais e culturais que apresentam semelhanças, embora tenham causas diferentes? Para responder a essa pergunta, é necessário aproximar experiências tão distintas quanto o movimento de Donald Trump nos Estados Unidos, a consolidação eleitoral do Reunião Nacional na França, as transformações políticas latino-americanas e as crises persistentes do Haiti, de Cuba e da Venezuela. Também é preciso considerar as mudanças tecnológicas, a reorganização dos mercados de trabalho, os debates migratórios e os riscos climáticos.
O objetivo não é proclamar prematuramente a vitória de um campo político nem buscar uma ideologia universal capaz de explicar todas as transformações contemporâneas. Trata-se de identificar, com base em fatos verificáveis e comparações metodologicamente fundamentadas, por que determinados modelos ganham influência, por que outros perdem credibilidade e segundo quais critérios os cidadãos podem avaliar os resultados daqueles que os governam. Por trás das alternâncias eleitorais, das campanhas digitais e dos discursos sobre soberania, encontra-se uma questão mais fundamental: a capacidade das sociedades de oferecer a seus membros segurança, dignidade, perspectivas de futuro e a convicção de que as instituições públicas realmente servem ao interesse geral.
Brasil 2026: Lula diante do campo Bolsonaro
A primeira lição da eleição brasileira diz respeito à distância entre a experiência no poder e a capacidade de conquistar a confiança da maioria. Lula possui uma trajetória política excepcional, marcada por seus dois primeiros mandatos, seu retorno à Presidência e seu papel histórico na construção da esquerda brasileira contemporânea. Ainda assim, seu histórico político não é suficiente para neutralizar o campo Bolsonaro. O primeiro turno demonstra que a oposição conservadora conserva uma base eleitoral considerável e que a popularidade histórica de um dirigente não garante, por si só, a adesão ao seu governo nem a confiança em sua capacidade de responder às dificuldades do presente.
Para Lula, o desafio consiste em demonstrar que as políticas públicas podem melhorar de maneira duradoura as condições de vida, reduzir as desigualdades e preservar o lugar do Brasil nos assuntos internacionais. A defesa dos programas sociais, do emprego e do poder de compra insere-se em uma tradição política na qual o Estado desempenha um papel central na correção dos desequilíbrios do mercado. Essa tradição, porém, enfrenta uma exigência incontornável de resultados concretos. As famílias avaliam o governo com base no custo dos alimentos, da moradia e dos transportes, no acesso aos serviços públicos e na estabilidade de seus rendimentos. O crescimento econômico agregado, quando existe, não se traduz necessariamente em uma melhoria percebida de maneira uniforme em todas as regiões e por todos os grupos sociais. Assim, um governo pode apresentar indicadores macroeconômicos favoráveis e, ainda assim, perder parte da confiança popular se os avanços permanecerem distribuídos de forma desigual ou forem insuficientemente percebidos pela população.
As preocupações relacionadas ao trabalho ilustram essa dificuldade. O chamado regime «6×1», que corresponde a seis dias de trabalho seguidos de um dia de descanso, alimentou debates sobre a jornada de trabalho, a qualidade de vida e a remuneração. Essas reivindicações não se resumem a um conflito entre trabalhadores e empregadores. Elas também dizem respeito à transformação das expectativas sociais, ao lugar do tempo livre, à produtividade e à capacidade das empresas de organizar suas atividades em condições economicamente viáveis. A campanha eleitoral torna-se, assim, um espaço no qual questões cotidianas podem obrigar os responsáveis políticos a rever suas posições.
Flávio Bolsonaro beneficia-se da existência de um movimento político construído em torno da figura de seu pai, Jair Bolsonaro, mas sua candidatura não pode ser compreendida como uma simples reprodução da trajetória do ex-presidente. Ele precisa construir credibilidade própria, reunir eleitores com motivações distintas e conquistar apoio para além do núcleo conservador já mobilizado. Seu campo político apoia-se em redes políticas e sociais que atribuem grande importância à ordem pública, aos valores tradicionais, à crítica da intervenção estatal e a uma concepção mais enfática da autoridade. Essas orientações podem atrair eleitores ideologicamente convencidos, mas também cidadãos frustrados com a criminalidade, as dificuldades econômicas ou aquilo que consideram ser o distanciamento das elites políticas. Seria, contudo, reducionista tratar esse eleitorado como um bloco uniforme. As motivações religiosas, econômicas, territoriais e geracionais precisam ser distinguidas, em vez de presumidas como idênticas.
O resultado do primeiro turno tampouco é suficiente para prever o desfecho do segundo. A redistribuição dos votos dos candidatos eliminados, a participação eleitoral, as alianças regionais e a capacidade de cada campanha de mobilizar os indecisos podem alterar o equilíbrio. As pesquisas divulgadas nos dias seguintes ao primeiro turno devem ser interpretadas como retratos momentâneos da opinião pública, sujeitos a margens de erro e limitações metodológicas, e não como resultados eleitorais antecipados. Em 14 de outubro, uma pesquisa Quaest divulgada por vários veículos de comunicação brasileiros colocava Flávio Bolsonaro com 46% e Lula com 44%, em uma situação de empate estatístico, considerando a margem de erro anunciada de dois pontos percentuais. Esse retrato confirma a incerteza da disputa, mas não permite determinar seu resultado.
A eleição também possui uma dimensão internacional de grande relevância. O Brasil é uma potência agrícola, um importante ator industrial na América Latina, um país rico em recursos estratégicos e um parceiro central da China na região. Suas relações com Washington não podem ser consideradas independentemente de seus vínculos comerciais com Pequim, de sua participação nos BRICS e de sua intenção de preservar uma capacidade autônoma de decisão. Uma aproximação política entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump poderia facilitar determinadas convergências diplomáticas, mas não eliminaria as restrições econômicas. As empresas brasileiras precisam de mercados, as exportações agrícolas dependem de destinos diversificados e as decisões industriais devem levar em conta os investimentos, as tecnologias e as cadeias internacionais de abastecimento.
A votação de 25 de outubro, portanto, não decidirá apenas quem ocupará a Presidência. Ela influenciará a maneira como o Brasil articula justiça social, disciplina econômica, segurança, soberania e cooperação internacional. Seria, entretanto, prematuro considerar o resultado uma prova definitiva de uma transformação ideológica de toda a América Latina. Uma eleição nacional pode ter repercussões regionais consideráveis sem necessariamente se transformar em um modelo reproduzível. Para determinar se o Brasil anuncia um novo período político ou revela, sobretudo, os limites do governo em exercício, será necessário examinar os programas, as alianças, os resultados territoriais e as expectativas dos eleitores, confrontando esses elementos com as transformações observadas em outras sociedades.
A reconfiguração das direitas na Europa, na América Latina e no Caribe
O avanço de formações conservadoras em diversas democracias tem sido frequentemente descrito como uma guinada geral à direita. Essa interpretação identifica uma tendência política real em determinados países, mas corre o risco de confundir fenômenos distintos. O sucesso de um partido nacionalista em uma eleição europeia, a eleição de um dirigente que promete uma política de segurança mais rigorosa e o retorno de uma oposição conservadora após um período de governo progressista não decorrem necessariamente do mesmo mecanismo. Os contextos institucionais, os sistemas eleitorais, as estruturas econômicas e as histórias nacionais determinam o significado de cada resultado.
Na França, as eleições europeias de 9 de junho de 2024 constituíram um sinal importante. O Reunião Nacional (Rassemblement national, RN) obteve 31,37% dos votos expressos, superando amplamente a coalizão Necessidade da Europa (Besoin d’Europe), associada à maioria presidencial, que alcançou 14,60%. Esses resultados oficiais demonstram a capacidade do partido de transformar temas como imigração, poder de compra, segurança e soberania em uma oferta política capaz de mobilizar uma parcela significativa do eleitorado. Não significam, contudo, que quase um terço da população francesa adira a uma doutrina uniforme, nem que o voto europeu determine mecanicamente o comportamento dos eleitores em uma eleição presidencial. A participação, a natureza da votação e a percepção dos assuntos europeus influenciam as escolhas expressas nas urnas.
A trajetória de Marine Le Pen ilustra uma transformação da vida política francesa: a normalização progressiva de uma formação durante muito tempo marginalizada nas alianças governamentais e que se tornou um ator central do debate público. Essa evolução decorre da continuidade de sua presença territorial, da transformação de seu discurso e da capacidade do partido de se apresentar como porta-voz de grupos que se sentem insuficientemente representados pelas forças tradicionais. Ela também se insere em uma crise de confiança nas instituições e nos partidos estabelecidos. O crescimento do apoio eleitoral, entretanto, não resolve a questão da capacidade de governar. A gestão das finanças públicas, os compromissos europeus, as restrições constitucionais e a necessidade de formar maiorias exigem escolhas e concessões que as campanhas frequentemente permitem adiar.
A Europa, porém, não segue uma trajetória política única. Movimentos conservadores e nacionalistas ganharam visibilidade em diversos países, combinando, conforme o contexto, preocupações identitárias, críticas à imigração, contestação das elites e rejeição de determinadas políticas europeias. Essas transformações coexistem, no entanto, com configurações distintas: coalizões centristas, governos de esquerda, sistemas de compromisso parlamentar e a formação de novas alianças. A diversidade das estruturas econômicas e das instituições impede que o cenário europeu seja reduzido a uma marcha uniforme em direção ao conservadorismo. É mais preciso falar de uma fragmentação das antigas famílias políticas, de uma volatilidade crescente de parte do eleitorado e da concorrência entre propostas que prometem restabelecer o controle nacional sobre as decisões.
Na América Latina, as dinâmicas são igualmente contrastantes. A ascensão de Javier Milei na Argentina, a experiência de segurança pública de Nayib Bukele em El Salvador e a candidatura de Flávio Bolsonaro no Brasil representam trajetórias diferentes, que seria imprudente reunir sob um único rótulo. O liberalismo econômico radical de Milei, a centralidade do combate às gangues na estratégia de Bukele e o conservadorismo político associado ao bolsonarismo não se apoiam nas mesmas prioridades nem estabelecem relações idênticas com as instituições. Sua convergência reside mais na promessa de romper com sistemas considerados ineficazes do que na existência de um programa comum e coerente.
Essa distinção é essencial para avaliar as consequências das políticas de segurança. Quando um governo obtém resultados visíveis no combate à violência, pode fortalecer a confiança de parte da população, sobretudo em territórios onde a insegurança restringe a liberdade de circulação, o comércio e a vida cotidiana. A avaliação, porém, não pode se limitar à popularidade do dirigente nem aos anúncios oficiais. É necessário examinar a duração dos resultados, o funcionamento do sistema judicial, as condições de detenção, as garantias processuais e os riscos de abuso de poder. Uma política pode reduzir determinadas formas de violência e, ao mesmo tempo, enfraquecer proteções institucionais. Por outro lado, o respeito aos direitos não dispensa o Estado de proteger eficazmente seus cidadãos. O desafio consiste em avaliar as duas dimensões em conjunto, sem apresentar segurança e liberdades como objetivos necessariamente incompatíveis.
O Caribe exige uma abordagem ainda mais atenta aos contextos locais. A República Dominicana, a Jamaica e o Haiti não dispõem das mesmas capacidades administrativas, estruturas econômicas ou instituições de segurança. As escolhas eleitorais nesses países são influenciadas pelo emprego, pelo custo de vida, pelo acesso à energia, pela migração, pela criminalidade, pela vulnerabilidade a desastres naturais e pela confiança nos serviços públicos. Nessas sociedades, a demanda por autoridade pode expressar uma preferência ideológica, mas também pode traduzir a urgência de recuperar condições elementares de segurança e previsibilidade. Uma mesma fórmula política pode assumir significados diferentes conforme o Estado conte com uma administração relativamente consolidada ou tenha dificuldades para garantir sua presença em parte de seu território.
A comparação internacional conduz, assim, a uma conclusão provisória: o que avança em diversas regiões não é necessariamente uma ideologia única, mas uma expectativa de ruptura com governos percebidos como incapazes de produzir resultados suficientes. Os movimentos que procuram capitalizar essa expectativa pertencem a famílias ideológicas diferentes e, por vezes, propõem soluções contraditórias. Seu sucesso duradouro dependerá menos da força de seu discurso do que de sua capacidade de transformar promessas em instituições eficazes, condições de vida mais estáveis e resultados verificáveis.
Donald Trump, Marine Le Pen e as redes políticas transnacionais
A transformação das direitas contemporâneas não ocorre em espaços nacionais isolados. Os dirigentes observam as campanhas de seus homólogos, retomam temas que demonstraram eficácia, trocam métodos de comunicação e, em alguns casos, procuram construir convergências diplomáticas. As redes digitais aceleram a circulação de ideias, enquanto imagens, slogans e episódios de confronto político atravessam fronteiras quase instantaneamente. Existe, portanto, uma dimensão transnacional na reconfiguração política, mas ela precisa ser descrita com precisão. A semelhança entre dois discursos não prova a existência de uma organização comum, assim como a proximidade ideológica não significa que os interesses nacionais dos dirigentes envolvidos sejam coincidentes.
Donald Trump ocupa um lugar particular nesse ambiente porque seu movimento transformou a soberania nacional, o controle migratório, a crítica às elites e o confronto com as instituições tradicionais em elementos centrais de sua identidade política. Seu estilo privilegia a personalização do poder, a comunicação direta, a polarização e a capacidade de impor os temas do debate público. Essa abordagem combina a crítica à globalização tal como conduzida pelas elites econômicas e políticas com a intenção de redefinir as condições nas quais os Estados Unidos exercem sua influência. Ela pode atrair movimentos estrangeiros que também denunciam uma perda de controle nacional, mas não constitui uma doutrina que todos os países possam aplicar sem adaptações.
A política comercial norte-americana revela uma tensão fundamental entre o discurso de soberania e as restrições da interdependência. Tarifas alfandegárias, restrições tecnológicas e a busca por recursos estratégicos são apresentados como instrumentos para fortalecer a autonomia nacional. Entretanto, essas medidas também podem elevar os custos para as empresas, complicar as relações com parceiros comerciais e provocar retaliações que reduzam as vantagens esperadas. No caso brasileiro, a questão dos minerais críticos e das relações com a China demonstra que uma aproximação com Washington não pode ser avaliada apenas com base nas afinidades entre dirigentes. O Brasil possui interesses industriais, agrícolas, diplomáticos e ambientais próprios; nenhuma mudança política eliminaria a importância da China em seu comércio exterior.
Marine Le Pen representa outra trajetória. O Reunião Nacional tem trabalhado progressivamente para ampliar sua aceitação política, fortalecer sua presença eleitoral e associar suas posições identitárias a preocupações sociais e econômicas. A comparação com Trump é pertinente em determinados aspectos, especialmente na crítica às elites, na importância atribuída à imigração e na valorização da soberania nacional. Contudo, ela se torna enganosa quando apaga as diferenças entre o sistema presidencial norte-americano e as instituições francesas, entre as estruturas econômicas dos dois países ou entre seus compromissos internacionais. A França integra a União Europeia e a zona do euro; suas decisões orçamentárias, comerciais e diplomáticas estão inseridas em estruturas que não existem da mesma maneira nos Estados Unidos.
Também é importante distinguir dirigentes, partidos, eleitorados e redes de apoio. Uma personalidade política pode compartilhar determinados objetivos com um dirigente estrangeiro sem aderir a todas as suas posições. Os eleitores podem apoiar uma política de controle migratório e rejeitar, ao mesmo tempo, o protecionismo econômico, ou defender uma orientação conservadora em questões culturais sem aprovar uma revisão das alianças internacionais. As categorias políticas devem, portanto, ser utilizadas como instrumentos de análise, e não como substitutos do estudo dos programas e dos comportamentos.
A influência transnacional deve ser demonstrada por meio de elementos observáveis: encontros oficiais, declarações públicas, apoios eleitorais, acordos entre organizações, circulação documentada de assessores, estratégias de comunicação compartilhadas e posições convergentes sobre questões específicas. Também é necessário examinar os desacordos. Movimentos podem compartilhar uma retórica nacionalista e, ainda assim, defender interesses comerciais incompatíveis, políticas industriais concorrentes ou concepções divergentes de diplomacia. A soberania, frequentemente apresentada como linguagem comum, pode justamente levá-los ao conflito quando suas ambições nacionais se confrontam.
As redes políticas internacionais não constituem, portanto, uma explicação universal para os sucessos conservadores, nem um fenômeno secundário. Elas contribuem para difundir métodos, legitimar determinadas orientações e transmitir aos dirigentes nacionais a percepção de que participam de uma transformação mais ampla. Sua influência, contudo, depende sempre da capacidade dos atores locais de traduzir essas ideias em seu próprio contexto. Uma estratégia importada pode mobilizar eleitores sem responder às restrições institucionais ou econômicas do país que a adota. A questão decisiva continua sendo a tradução política: o que acontece com essas promessas quando encontram os orçamentos públicos, os tribunais, as administrações, as empresas e as expectativas concretas da população?
Venezuela, Cuba e Haiti: As promessas políticas submetidas à prova dos resultados
A Venezuela, Cuba e o Haiti ocupam um lugar particular na reflexão sobre os modelos políticos porque suas trajetórias são frequentemente utilizadas como argumentos nas controvérsias ideológicas internacionais. Às vezes, são apresentados como provas definitivas do fracasso de uma família política; em outras ocasiões, suas dificuldades são atribuídas inteiramente às pressões externas. Essas interpretações simplificadoras impedem a compreensão dos mecanismos reais das crises. Os três países possuem histórias, instituições, estruturas econômicas e relações internacionais muito diferentes. Sua comparação só é útil quando permite identificar fatores distintos, examinar responsabilidades internas e externas e avaliar as consequências humanas das decisões públicas.
Venezuela: dependência econômica, crise institucional e deslocamentos populacionais
A Venezuela ilustra os riscos associados à dependência de um recurso estratégico quando ela não é acompanhada por uma diversificação econômica suficiente e por instituições capazes de resistir às crises. Durante muito tempo, o petróleo financiou uma parcela considerável das receitas públicas e conferiu ao Estado ampla capacidade de intervenção. As políticas sociais implementadas durante o governo de Hugo Chávez ampliaram o acesso de determinados grupos da população a serviços e rendimentos. Contudo, a dependência das receitas petrolíferas, os desequilíbrios macroeconômicos, as escolhas de política econômica, a deterioração da capacidade produtiva e o confronto político contribuíram para enfraquecer o modelo.
As sanções norte-americanas também afetaram o ambiente econômico e as possibilidades de financiamento e comercialização, especialmente no setor petrolífero. Seus efeitos devem ser examinados sem transformá-las na explicação exclusiva de todas as dificuldades acumuladas. Problemas estruturais, decisões das autoridades nacionais, transformações do mercado petrolífero e restrições institucionais interagiram ao longo de vários anos. Uma análise rigorosa deve, portanto, distinguir esses fatores e evitar atribuir a uma única causa uma crise resultante de múltiplos mecanismos.
A dimensão humana é considerável. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 7,9 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos encontravam-se no mundo no final de 2025, de acordo com os dados comunicados pelos governos. A maioria era acolhida em países da América Latina e do Caribe.
Esse deslocamento em massa afeta famílias, mercados de trabalho, sistemas escolares, serviços de saúde e finanças dos países de acolhimento. Ele recorda que as partidas nunca se explicam por uma única motivação: a busca por segurança, o acesso a cuidados médicos, a perda de rendimentos, as perspectivas profissionais e a reunificação familiar podem combinar-se nas decisões individuais.
Cuba: conquistas sociais, restrições econômicas e responsabilidade pública
Cuba apresenta uma configuração diferente. O país desenvolveu conquistas importantes em áreas como educação e saúde, mas enfrenta uma crise econômica prolongada, escassez de bens, dificuldades energéticas e deterioração das condições materiais de vida. Para compreender essa situação, é necessário considerar simultaneamente várias dimensões: as limitações estruturais de seu sistema econômico, as decisões das autoridades, a baixa produtividade, as dificuldades de acesso a divisas e investimentos, assim como as consequências das sanções e restrições norte-americanas.
Atribuir toda a crise a um único fator significaria substituir a análise por uma posição política previamente estabelecida. As medidas externas influenciam as possibilidades econômicas do país, mas não eliminam a responsabilidade das instituições nacionais pela formulação das políticas, pela gestão dos recursos e pela capacidade de corrigir disfunções. Da mesma forma, examinar as decisões internas sem considerar as restrições comerciais e financeiras externas produziria uma interpretação incompleta.
A avaliação de Cuba também exige que não se confundam os resultados sociais históricos com as condições atuais. Um sistema pode ter construído uma ampla cobertura educacional ou sanitária e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades crescentes para garantir o abastecimento, a qualidade dos serviços e as condições materiais necessárias ao funcionamento das instituições. Os indicadores de saúde ou escolarização não descrevem, por si sós, a disponibilidade cotidiana de medicamentos, a continuidade do fornecimento de eletricidade ou a possibilidade de os profissionais viverem de seu trabalho. Inversamente, a escassez não basta para negar todas as conquistas sociais. A comparação deve apoiar-se em dados datados, definições transparentes e fontes tão independentes quanto possível, reconhecendo que as dificuldades de coleta podem limitar a precisão de determinados indicadores.
Haiti: fragilidade institucional, violência e emergência humanitária
O Haiti enfrenta uma crise de outra natureza, na qual a fragilidade institucional, a violência armada, a pobreza e o enfraquecimento dos serviços públicos se reforçam mutuamente. O problema não pode ser reduzido à insegurança, embora esta prejudique diretamente a circulação, a atividade econômica, a escolarização e o acesso à saúde. A capacidade do Estado de arrecadar receitas, administrar a justiça, assegurar a continuidade administrativa, proteger as infraestruturas e garantir uma presença pública confiável nos territórios constitui uma dimensão central da crise.
Quando as instituições não conseguem cumprir essas funções, famílias, comerciantes, escolas e unidades de saúde enfrentam custos crescentes, enquanto as atividades produtivas e os investimentos se tornam mais difíceis. Os deslocamentos forçados desorganizam comunidades e redes econômicas. As crianças correm o risco de perder o acesso regular à educação, os estabelecimentos de saúde funcionam em condições difíceis e as empresas hesitam em manter ou ampliar suas atividades nas áreas expostas à violência.
Os números humanitários, entretanto, devem ser utilizados com especial rigor. O manuscrito inicial menciona 6,4 milhões de pessoas que necessitam de assistência humanitária, cerca de 1,5 milhão de pessoas deslocadas pela violência e aproximadamente 6 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda. Esses valores não devem ser apresentados como um conjunto estatístico homogêneo sem referência à publicação original, à data de referência e à definição de cada indicador. O número de pessoas que necessitam de ajuda, o número de pessoas contempladas por um plano humanitário, as estimativas de deslocamento interno e os níveis de insegurança alimentar correspondem a indicadores diferentes. Nesta versão, portanto, esses números não são considerados dados definitivos, por não haver verificação independente e simultânea das três fontes.
A responsabilidade política haitiana deve ser examinada sem rodeios, mas sem transformar o sofrimento da população em uma condenação coletiva do país. As falhas sucessivas de governança, a fragilidade dos mecanismos de controle, as deficiências da justiça, as práticas de corrupção e a incapacidade de construir continuidade administrativa contribuíram para a erosão da confiança pública. Os grupos armados e as redes criminosas exploram esse enfraquecimento, enquanto as rivalidades políticas podem impedir a formação de um quadro comum de ação. A responsabilidade dos dirigentes e das elites deve ser avaliada com base nas decisões tomadas, nas instituições mantidas ou enfraquecidas e nos resultados alcançados, e não por meio de acusações generalizadas que não permitem estabelecer os fatos nem identificar as soluções.
Os parceiros internacionais também têm um papel a desempenhar, mas a ajuda externa só produz efeitos duradouros quando se insere em uma estratégia coerente, transparente e adaptada às necessidades da população. O financiamento de emergência pode salvar vidas, enquanto a reconstrução institucional exige tempo, competências, coordenação duradoura e mecanismos de responsabilização. Soluções importadas que negligenciam as realidades locais correm o risco de produzir estruturas frágeis, dependentes de financiamentos descontínuos ou insuficientemente vinculadas às comunidades envolvidas. Em contrapartida, invocar a soberania nacional para afastar toda avaliação independente não pode justificar a ausência de resultados nem a falta de transparência na utilização dos recursos.
A comparação entre esses três países não permite, portanto, condenar nem consagrar uma ideologia em sua totalidade. Ela demonstra, antes, que nenhum discurso político pode compensar de maneira duradoura a insuficiência das instituições, a má gestão dos recursos ou a ausência de perspectivas econômicas. As restrições externas são reais e precisam ser medidas; as responsabilidades nacionais também são reais. Para as populações, a distinção teórica entre modelos importa menos do que a possibilidade de receber cuidados médicos, enviar os filhos à escola, trabalhar sem medo, dispor de alimentação suficiente e acreditar que as regras se aplicam a todos. É a partir dessa experiência cotidiana que as promessas políticas devem ser avaliadas.
Trabalho, inteligência artificial, identidade e imigração. As novas expectativas políticas
A reconfiguração política ocorre em sociedades cujas condições de trabalho, formas de comunicação e referências culturais estão mudando rapidamente. Uma parcela dos cidadãos percebe as transformações econômicas como uma promessa de melhoria; outra as considera uma fonte de incerteza, sobretudo quando os ganhos de produtividade não se traduzem em aumento perceptível dos rendimentos ou em melhores perspectivas para os jovens. A precariedade do emprego, o peso do setor informal, a dificuldade de acesso à moradia e a distância entre as qualificações adquiridas e os empregos disponíveis alimentam um sentimento de perda de posição social que pode atingir grupos muito diferentes.
Esse sentimento não conduz automaticamente a uma orientação política específica. No entanto, abre espaço para que os partidos apresentem respostas concorrentes: proteção social, desregulamentação, retomada industrial, controle migratório, investimento em formação ou ruptura com as políticas anteriores. A capacidade de um movimento de transformar essas preocupações em apoio eleitoral depende da credibilidade de seu diagnóstico, da clareza de suas propostas e da confiança que os cidadãos depositam nele.
A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão a essas preocupações. Em seu estudo Generative AI and Jobs: A 2025 Update, publicado em 20 de maio de 2025, a Organização Internacional do Trabalho estima que aproximadamente um em cada quatro empregos no mundo apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A organização ressalta, contudo, que a transformação das tarefas é mais provável do que o desaparecimento completo da maioria dos empregos envolvidos.
Essa distinção é essencial. A exposição tecnológica não constitui uma previsão automática de desemprego. Suas consequências dependerão dos setores econômicos, das decisões empresariais, das competências disponíveis, das proteções sociais e da capacidade dos trabalhadores de participar das mudanças que afetam suas atividades. A automatização de determinadas tarefas pode liberar tempo para atividades mais complexas, mas também pode reduzir a demanda por certas funções, modificar as qualificações procuradas ou deslocar o poder de negociação entre empregadores e empregados. Os efeitos variarão conforme as profissões, os países e as capacidades de adaptação.
A questão política central, portanto, não consiste apenas em saber se a inteligência artificial transformará o trabalho, mas em determinar quem se beneficiará dessa transformação e quem arcará com seus custos. Os países capazes de investir em educação, infraestruturas digitais, pesquisa e formação continuada dispõem de vantagens importantes. Aqueles que dependem de empregos pouco protegidos, serviços administrativos frágeis ou conectividade insuficiente correm o risco de ver as desigualdades se ampliarem.
Para o Haiti e várias economias caribenhas, a prioridade não pode se limitar à adoção de novas ferramentas. Deve incluir o acesso à eletricidade e à internet, a formação de professores, a proteção de dados, o domínio de idiomas e a criação de atividades capazes de converter competências em renda. O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 2025, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, intitulado A Matter of Choice: People and Possibilities in the Age of AI, enfatiza o papel das escolhas humanas e coletivas na transformação do potencial tecnológico em progresso para o desenvolvimento.
A comunicação política também está sendo transformada. As redes sociais permitem que os dirigentes se dirijam diretamente a seus apoiadores, contornem intermediários tradicionais e reajam rapidamente aos acontecimentos. Entretanto, essas redes também favorecem a disseminação de conteúdos enganosos, campanhas de assédio e mensagens concebidas para provocar reações emocionais, em vez de informar. Os conteúdos sintéticos produzidos por inteligência artificial tornam ainda mais difícil distinguir documentos autênticos, montagens, sátiras e falsificações deliberadas.
Nessas condições, a confiança torna-se um recurso político frágil. Os meios de comunicação, as autoridades eleitorais, os pesquisadores e as plataformas possuem responsabilidades distintas. A resposta não pode depender exclusivamente da remoção de conteúdos: exige também transparência, educação midiática, acesso às fontes primárias e capacidade dos cidadãos de verificar as afirmações que lhes são apresentadas. As instituições democráticas devem preservar a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, desenvolver mecanismos que permitam identificar manipulações e responsabilizar os envolvidos.
Os debates sobre identidade, religião, família e imigração fazem parte desse mesmo cenário. Eles envolvem experiências íntimas e representações coletivas, o que ajuda a explicar sua força de mobilização. Entretanto, os responsáveis políticos podem exagerar determinadas ameaças ou apresentar grupos inteiros como responsáveis por dificuldades que possuem múltiplas causas. Uma análise séria deve distinguir os dados relativos ao emprego, à moradia e à criminalidade das percepções, das generalizações e das narrativas de campanha. Deve também reconhecer que as transformações culturais não são vividas da mesma maneira por todas as gerações ou regiões. As preocupações expressas pelos cidadãos merecem ser examinadas; não justificam, porém, a estigmatização coletiva nem o abandono das garantias fundamentais.
Em última análise, as transformações do trabalho e da comunicação colocam uma questão de dignidade. Uma sociedade pode dispor de tecnologias avançadas e, ainda assim, deixar parte de sua população em situação de incerteza, isolamento ou falta de perspectivas. Também pode defender valores tradicionais sem responder às necessidades materiais daqueles que os invocam. Os modelos políticos serão, portanto, julgados por sua capacidade de conectar as transformações tecnológicas à educação, ao emprego, à liberdade, à participação democrática e à possibilidade concreta de cada pessoa construir seu próprio futuro.
Clima, segurança e resiliência dos Estados
As mudanças climáticas tornaram-se uma questão de governança, segurança econômica e continuidade dos serviços públicos. No Caribe, ciclones, períodos de seca, chuvas extremas, erosão costeira e elevação do nível do mar ameaçam atividades essenciais, especialmente a agricultura, a pesca, o turismo, os transportes e o abastecimento de água. O relatório da Organização Meteorológica Mundial dedicado ao estado do clima na América Latina e no Caribe em 2025, publicado em 18 de maio de 2026, registra episódios de calor recorde, secas persistentes, ciclones tropicais destrutivos e impactos crescentes sobre os sistemas alimentares e as economias.
Esses fenômenos não produzem as mesmas consequências em todos os lugares. A exposição geográfica é importante, mas as capacidades de prevenção, a qualidade das infraestruturas e os recursos disponíveis determinam, em grande medida, a dimensão dos danos. Um desastre natural pode ter consequências muito diferentes conforme atinja um território dotado de sistemas de alerta, infraestruturas bem conservadas e serviços de emergência operacionais ou uma sociedade na qual estradas, redes elétricas, escolas e unidades de saúde já se encontram fragilizadas.
Para um Estado frágil, uma catástrofe pode rapidamente transformar-se em crise social e política. Os danos às estradas, às redes elétricas, às escolas, aos hospitais e aos sistemas de irrigação interrompem atividades, aumentam as despesas públicas e reduzem a renda das famílias. Quando as instituições já são frágeis, o socorro pode atrasar, os recursos podem ser distribuídos de maneira desigual e a reconstrução pode ser postergada. A resiliência, portanto, não se mede apenas pela capacidade de receber ajuda depois de uma catástrofe, mas também pela capacidade de preparar os territórios, conservar as infraestruturas, proteger as populações expostas e restabelecer rapidamente os serviços essenciais.
A segurança também deve ser compreendida em sentido amplo. O combate à violência armada exige instituições capazes de proteger as pessoas, investigar crimes e fazer a justiça funcionar. Mas a segurança humana depende igualmente do acesso à alimentação, à saúde, à educação, à água e a meios de subsistência estáveis. Essas dimensões não substituem a manutenção da ordem pública; contribuem para reduzir as vulnerabilidades que os atores criminosos podem explorar.
A resposta pública deve, assim, combinar medidas imediatas de proteção com uma reconstrução institucional e social de longo prazo, mantendo mecanismos de controle capazes de prevenir abusos. Em um contexto de violência, a restauração da autoridade pública não pode ser duradoura se depender exclusivamente da coerção. Ela também pressupõe uma justiça acessível, serviços públicos funcionais, uma administração previsível e a confiança das comunidades.
O desafio caribenho é, portanto, duplo: reduzir os riscos climáticos e fortalecer a capacidade dos Estados de responder a eles. A região não pode eliminar, por conta própria, as causas globais do aquecimento, mas pode melhorar o ordenamento territorial, a preparação para desastres, a proteção dos ecossistemas, a segurança alimentar e a cooperação regional. Os mecanismos de financiamento climático também precisam ser acessíveis aos países mais vulneráveis, com procedimentos que permitam transformar compromissos financeiros em infraestruturas e serviços efetivamente operacionais.
A qualidade dessas escolhas influenciará a confiança nos governos tanto quanto os discursos sobre soberania ou identidade. Um poder que promete proteção, mas não prepara as infraestruturas, não assegura os serviços essenciais e não presta contas sobre a utilização dos recursos públicos corre o risco de aprofundar a distância entre suas declarações e a experiência dos cidadãos.
Para além da esquerda e da direita: Os resultados como critério de avaliação
As categorias de esquerda e direita continuam indispensáveis para compreender as tradições políticas, os interesses sociais e as diferentes concepções do Estado. Tornam-se, porém, insuficientes quando são utilizadas como explicações completas do comportamento eleitoral. Os eleitores nem sempre escolhem um programa em sua totalidade. Podem apoiar um partido por sua política de segurança e rejeitar sua orientação econômica, ou aceitar determinadas propostas sociais enquanto desaprovam seu discurso cultural. Também podem votar em um candidato por convicção, lealdade, rejeição ao adversário ou ausência de uma alternativa considerada confiável. O voto constitui, portanto, uma expressão política complexa, cujo significado não pode ser deduzido apenas da classificação ideológica do candidato.
Essa complexidade exige distinguir as intenções anunciadas dos resultados observáveis. Um programa de redistribuição deve ser avaliado por seus efeitos sobre a pobreza, a renda e o acesso aos serviços, mas também por seu financiamento e sua sustentabilidade. Uma política de disciplina orçamentária deve ser examinada à luz da qualidade das despesas, da evolução da dívida, dos investimentos produtivos e das consequências sociais dos ajustes. Uma estratégia de desregulamentação precisa demonstrar que efetivamente favorece a atividade econômica, a inovação e o emprego, sem transferir custos excessivos aos trabalhadores ou à coletividade.
Da mesma forma, uma política de segurança não pode ser julgada apenas por seus anúncios ou por sua popularidade. Deve ser avaliada de acordo com seus efeitos sobre a violência, o funcionamento da justiça, a proteção dos cidadãos e o respeito às liberdades fundamentais. A redução da criminalidade precisa ser examinada durante um período suficientemente longo e com base em indicadores transparentes. Os resultados devem ser confrontados com os procedimentos judiciais, as garantias oferecidas às pessoas e os mecanismos de controle das instituições responsáveis pela aplicação da lei.
Esses critérios não pressupõem que todos os países devam adotar as mesmas políticas. Os recursos disponíveis, as estruturas demográficas, as instituições e as restrições econômicas variam consideravelmente. O objetivo é submeter as escolhas políticas a uma mesma exigência de responsabilidade. Os governos devem explicar o que pretendem alcançar, como financiam seus compromissos, quais resultados obtêm e que correções introduzem quando suas políticas fracassam. A transparência dos dados e a possibilidade de controle independente tornam-se, então, essenciais, pois nenhuma promessa de transformação pode ser avaliada seriamente quando os resultados são opacos ou os indicadores são escolhidos exclusivamente para favorecer o poder.
A própria soberania merece essa abordagem exigente. Ela não se resume ao afastamento de uma potência estrangeira nem à afirmação de uma identidade nacional. Pressupõe a capacidade efetiva de um país de tomar decisões, proteger suas instituições, desenvolver competências, diversificar sua economia e defender os interesses de sua população em um ambiente internacional interdependente. Uma economia excessivamente dependente de um único recurso, um Estado incapaz de garantir seus serviços essenciais ou uma sociedade privada de acesso ao conhecimento dispõe de margem de decisão limitada, mesmo quando seus dirigentes utilizam um vocabulário soberanista. Em contrapartida, a cooperação internacional não representa necessariamente uma perda de autonomia quando se baseia em interesses claramente definidos e em instituições capazes de negociar em condições equilibradas.
A democracia não se reduz à vitória eleitoral, assim como a eficácia não se mede pela concentração do poder. Um governo responsável deve ser capaz de agir, mas também de ser fiscalizado; tomar decisões difíceis, mas explicar suas razões; proteger a população, mas respeitar os direitos; promover o crescimento, mas prestar contas sobre a distribuição de seus benefícios. A confiança política duradoura nasce menos da promessa de um líder providencial do que da experiência repetida de instituições capazes de produzir resultados, corrigir seus erros e tratar os cidadãos com equidade.
Essa exigência também permite evitar um erro frequente nos debates internacionais: confundir o sucesso eleitoral de um movimento com a validação de todas as suas propostas. Uma vitória demonstra que uma coalizão obteve apoio suficiente em determinado contexto eleitoral. Não prova, por si só, que as políticas anunciadas sejam economicamente viáveis, juridicamente aplicáveis ou socialmente benéficas. Somente sua implementação, avaliação e evolução ao longo do tempo permitem medir seus efeitos.
Painel de desenvolvimento: Medir os resultados sem simplificar as realidades
A comparação entre Brasil, Haiti, Cuba e Venezuela exige um painel multidimensional, em vez de uma classificação única. O produto interno bruto por habitante informa sobre a produção média, mas não descreve, por si só, a distribuição da renda nem as condições de vida. Os indicadores de pobreza, expectativa de vida, escolarização, acesso à água e à eletricidade, emprego formal e segurança permitem complementar essa primeira medida. Contudo, precisam vir acompanhados do ano de referência, da definição estatística e da fonte utilizada. Um valor estimado, um dado administrativo e uma pesquisa domiciliar não possuem necessariamente o mesmo grau de comparabilidade.
Os dados econômicos disponíveis ilustram essa necessidade. De acordo com as séries do Banco Mundial, o Brasil registrou crescimento real do PIB da ordem de 3,4% em 2024, enquanto as estimativas para o Haiti e Cuba indicam uma contração da atividade econômica naquele mesmo ano. Esses números constituem referências macroeconômicas, e não uma medida completa do bem-estar. Não informam diretamente sobre a distribuição da renda, o acesso efetivo aos serviços públicos, a segurança alimentar ou as disparidades territoriais. As estatísticas relativas a Cuba também devem ser interpretadas levando em conta as dificuldades de comparação e as eventuais limitações dos dados disponíveis.
Uma comparação rigorosa deve igualmente evitar confundir dólares correntes com poder de compra real. O PIB por habitante expresso em dólares correntes depende, entre outros fatores, das taxas de câmbio e não representa a renda média efetivamente recebida por cada cidadão. Para comparar os padrões de vida, convém utilizar, quando os dados permitirem, medidas baseadas na paridade do poder de compra, indicadores de pobreza e pesquisas sobre as condições materiais das famílias. Nenhum indicador isolado pode representar a complexidade de uma sociedade.
O painel proposto deve, portanto, articular seis dimensões complementares.
| Dimensão | Indicadores a considerar | Questão política central |
| Economia | Crescimento real, PIB por habitante, inflação e dívida pública | A atividade econômica cria oportunidades duradouras? |
| Inclusão social | Pobreza, desigualdades, segurança alimentar e acesso à saúde | Os avanços beneficiam uma parcela suficientemente ampla da população? |
| Capital humano | Escolarização, aprendizagem, expectativa de vida e formação profissional | Os cidadãos dispõem das capacidades necessárias para construir seu futuro? |
| Trabalho | Emprego, desemprego, informalidade e rendimentos do trabalho | O crescimento se traduz em empregos dignos e rendimentos previsíveis? |
| Instituições e segurança | Acesso à justiça, confiança institucional, violência e continuidade dos serviços | O Estado protege os cidadãos e presta contas de sua atuação? |
| Resiliência | Exposição climática, preparação para desastres e acesso à água e à energia | A sociedade consegue absorver choques e restabelecer seus serviços essenciais? |
Essa estrutura deve ser acompanhada de um protocolo documental preciso. Cada indicador precisa incluir uma fonte, uma data de publicação, um período de referência, uma definição e, quando necessário, uma nota metodológica. Os dados ausentes devem ser assinalados, em vez de substituídos por estimativas sem documentação. Quando os métodos de cálculo forem diferentes, os valores devem ser apresentados separadamente ou acompanhados de uma ressalva explícita.
No caso da Venezuela, é importante não misturar estimativas nacionais e projeções elaboradas por organismos internacionais sem explicar suas diferenças. Para Cuba, os dados econômicos devem ser confrontados com os indicadores sociais e as condições de acesso aos serviços. No Haiti, as estatísticas de crescimento não podem ser dissociadas da violência, dos deslocamentos populacionais e das dificuldades de acesso aos serviços essenciais. No Brasil, o desempenho macroeconômico deve ser examinado levando em conta as desigualdades, a qualidade do emprego e as diferenças entre as regiões.
Seria metodologicamente incorreto produzir imediatamente uma classificação geral dos quatro países com base nessas informações. Os dados disponíveis não abrangem todas as dimensões com o mesmo grau de precisão, e as situações nacionais não podem ser reduzidas a uma única nota sem escolhas metodológicas explícitas. O objetivo do painel não é reduzir as sociedades a alguns números, mas confrontar os discursos políticos com as condições materiais e humanas que eles afirmam pretender melhorar.
A longo prazo, esse instrumento poderia ser utilizado para acompanhar os resultados das políticas públicas ao longo de vários anos. Essa abordagem permitiria distinguir os efeitos imediatos de uma medida de suas consequências duradouras, identificar melhor os avanços distribuídos de maneira desigual e verificar se os compromissos anunciados se traduzem efetivamente em melhorias. A comparação se tornaria, então, um instrumento de responsabilidade pública, em vez de uma competição ideológica entre países.
A reconfiguração política mundial submetida à prova dos fatos
O Brasil de 2026 revela a dimensão das tensões que atravessam a política contemporânea. A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro coloca em jogo diferentes concepções da ação pública, da soberania e das relações internacionais. Ela também evidencia os limites de um governo que não pode depender de seu passado para garantir a adesão no presente, assim como a dificuldade de uma oposição em transformar um discurso de ruptura em um programa capaz de responder às exigências da administração pública. O primeiro turno estabeleceu uma vantagem eleitoral para Flávio Bolsonaro, mas o resultado do segundo turno, marcado para 25 de outubro, permanece incerto na data de elaboração deste relatório. Nenhum resultado futuro deve ser antecipado como fato consumado.
De Washington a Paris, de Buenos Aires a Porto Príncipe, as reconfigurações políticas tomam forma em sociedades que exigem mais segurança, perspectivas econômicas confiáveis, instituições dignas de confiança e maior controle sobre seu próprio futuro. Essas expectativas comuns não tornam os países intercambiáveis. As respostas que emergem dependem das histórias nacionais, da capacidade administrativa, dos recursos econômicos e das restrições geopolíticas. O sucesso eleitoral dos movimentos de ruptura pode traduzir adesão doutrinária, mas também uma punição aos governos em exercício ou uma exigência de maior eficácia. Cabe à análise distinguir essas motivações, em vez de reuni-las em uma explicação única.
A comparação entre Donald Trump e Marine Le Pen demonstra que as ideias políticas circulam para além das fronteiras, sem eliminar as diferenças institucionais e econômicas. A evolução brasileira recorda que as relações internacionais são moldadas tanto pelos interesses comerciais e estratégicos quanto pelas afinidades ideológicas. As experiências da Argentina e de El Salvador ilustram, cada uma à sua maneira, as expectativas de ruptura e os debates sobre a eficácia das políticas públicas. Por fim, as crises da Venezuela, de Cuba e do Haiti lembram que nenhuma interpretação séria pode ignorar as consequências humanas das escolhas econômicas, das fragilidades institucionais e das pressões externas.
Os desafios que se delineiam são, contudo, convergentes. Os Estados terão de restaurar a confiança sem enfraquecer as liberdades, garantir a segurança sem subtrair a ação pública ao controle, preparar os trabalhadores para as transformações provocadas pela inteligência artificial, proteger as populações contra os riscos climáticos e assegurar que os avanços econômicos se traduzam em melhorias perceptíveis na vida cotidiana. Para os países mais frágeis, especialmente o Haiti, essas exigências não são objetivos abstratos. Dizem respeito à própria capacidade da sociedade de preservar suas instituições, formar seus jovens, proteger as famílias e reconstruir um futuro coletivo.
Nesse contexto, a soberania exige uma definição que vá além das declarações políticas. Um país é tanto mais capaz de defender seus interesses quanto mais dispõe de instituições funcionais, uma economia diversificada, uma população qualificada, recursos mobilizáveis e uma administração capaz de cumprir suas atribuições. A soberania não exige isolamento. Pelo contrário, pressupõe a capacidade de escolher parceiros, negociar acordos equilibrados e preservar uma margem de decisão em um mundo interdependente. Uma cooperação internacional bem concebida pode fortalecer a autonomia de um Estado; uma dependência mal administrada pode reduzi-la.
A questão que atravessa essas trajetórias não consiste, portanto, apenas em saber se a direita ou a esquerda sairá fortalecida do período atual. Trata-se de determinar quais sistemas políticos conseguem transformar as expectativas populares em instituições eficazes, oportunidades reais e progresso duradouro. As ideologias continuarão a orientar as escolhas, mas nenhuma delas pode se eximir de prestar contas de suas consequências. A soberania sem capacidade de ação permanece uma declaração; o crescimento sem melhoria das condições de vida é incompleto; a segurança sem justiça enfraquece a confiança; e a solidariedade sem gestão rigorosa não pode perdurar.
Em escala planetária, o futuro político dependerá menos da difusão de um modelo único do que da capacidade das sociedades de aprender com suas experiências sem apagar suas diferenças. Brasil, Haiti, Cuba e Venezuela não contam a mesma história, assim como os Estados Unidos e a França não seguem trajetórias idênticas. A comparação entre eles, contudo, permite formular uma questão comum e decisiva para a legitimidade democrática: os poderes públicos estão realmente ampliando a capacidade dos seres humanos de viver em segurança, aprender, trabalhar, participar das decisões e contemplar o futuro com dignidade?
É por esse critério exigente e profundamente humano que a reconfiguração da ordem política mundial deverá, em última instância, ser julgada.
Principais referências documentais
As referências abaixo constituem a base documental deste artigo. Elas permitem verificar os principais elementos relativos às eleições brasileiras de 2026, às reconfigurações políticas internacionais, às migrações, às transformações do trabalho sob o impacto da inteligência artificial e às questões climáticas. Os dados nacionais utilizados no painel comparativo deverão ser vinculados às respectivas séries estatísticas. Os números relativos à situação humanitária no Haiti também deverão ser objeto de verificação específica junto aos organismos competentes antes da publicação.
I. Eleições, instituições e reconfigurações políticas
1. Tribunal Superior Eleitoral do Brasil (TSE). Resultados do 1º turno das Eleições 2026 estão disponíveis em página do TSE. 5 de outubro de 2026.
Fonte institucional de referência para a consulta dos resultados do primeiro turno da eleição presidencial brasileira de 2026.
Acesso à publicação oficial do TSE.
2. Reuters. Brazil election to reshape trade with US, with tariffs and minerals at stake. 9 de outubro de 2026.
Análise das implicações econômicas e geopolíticas da eleição brasileira, especialmente das relações comerciais com os Estados Unidos, das tarifas alfandegárias, dos minerais estratégicos e das orientações internacionais do próximo governo.
Acesso ao artigo da Reuters.
3. Parlamento Europeu. Resultados nacionais das eleições europeias de 2024: França. Resultados oficiais.
Fonte institucional dos resultados das eleições europeias na França, relevante para a análise do avanço do Reunião Nacional e da reconfiguração da direita francesa.
Acesso aos resultados oficiais.
II. Migrações e dinâmicas regionais
4. Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Venezuela Situation. Dados atualizados em dezembro de 2025.
Referência para as estimativas relativas aos refugiados e migrantes venezuelanos, bem como à sua distribuição geográfica, especialmente na América Latina e no Caribe.
Acesso aos dados do ACNUR.
III. Inteligência artificial, emprego e desenvolvimento humano
5. Organização Internacional do Trabalho (OIT). Generative AI and Jobs: A 2025 Update. 20 de maio de 2025.
Estudo dedicado à exposição dos empregos à inteligência artificial generativa e às possíveis transformações das tarefas profissionais, das competências e da organização do trabalho.
Acesso ao site oficial da OIT.
6. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Human Development Report 2025: A Matter of Choice: People and Possibilities in the Age of AI. 6 de maio de 2025.
Relatório de referência sobre as escolhas coletivas relacionadas à inteligência artificial, seus possíveis efeitos sobre o desenvolvimento humano e as condições necessárias para que as novas tecnologias contribuam para ampliar as oportunidades oferecidas às populações.
Acesso ao relatório do PNUD.
IV. Clima, resiliência e desenvolvimento econômico
7. Organização Meteorológica Mundial (OMM). State of the Climate in Latin America and the Caribbean 2025. 18 de maio de 2026.
Relatório regional dedicado à evolução do clima na América Latina e no Caribe, aos fenômenos meteorológicos extremos e às suas consequências para as populações, os sistemas alimentares e as economias nacionais.
Acesso ao relatório da OMM.
8. Banco Mundial. World Development Indicators. Base de dados estatísticos internacional, atualizada periodicamente.
Fonte de referência para os indicadores de crescimento do produto interno bruto, renda, desenvolvimento econômico e outras variáveis relevantes para a comparação das trajetórias nacionais. Os dados utilizados no painel deverão especificar o país, o indicador selecionado, o ano de referência e a data de extração.
Acesso à base de dados do Banco Mundial.
Nota metodológica e editorial
Esta bibliografia reúne as principais referências institucionais e jornalísticas utilizadas na análise. Para garantir a rastreabilidade documental de acordo com os padrões internacionais, cada estatística apresentada no texto ou no quadro comparativo deverá estar associada à sua fonte específica, ao período de referência e, quando pertinente, à metodologia de cálculo. No caso dos resultados eleitorais, devem prevalecer os dados oficiais do TSE. Para os indicadores econômicos, sociais e humanitários, devem ser priorizadas as séries originais das instituições produtoras. Os artigos de imprensa contribuem para contextualizar os acontecimentos e suas implicações, sem substituir as fontes estatísticas primárias.
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Born in the Caribbean, Open to the World!
Prof. Alejandro François de Montclair
Professor de Relações Internacionais e analista político da América Latina
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