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BRASIL: A DEMOCRACIA BRASILEIRA SOB PRESSÃO

Do período Bolsonaro-Lula à mudança geracional, das fraturas sociais e territoriais à revolução digital: o que o próximo ciclo eleitoral revela sobre uma potência continental submetida a uma profunda transformação política, democrática e geopolítica.

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CPGNNews Special Report

Edição 2026

CaribPulse Global News Network (CPGNNews)
Plataforma editorial internacional multilíngue, nascida no Caribe.

Pensar o Caribe. Compreender o mundo.

QUADRO ESTRATÉGICO

Por que dedicar, em 2026, um relatório estratégico ao Brasil? Porque poucas potências contemporâneas concentram, com tamanha intensidade, os recursos, as contradições e as possibilidades que caracterizam a transformação do sistema internacional. Com uma população estimada em 213,4 milhões de habitantes em 2025 e um território de mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil possui uma profundidade demográfica e territorial que o distingue da maioria das demais potências emergentes. Seu peso, entretanto, não decorre apenas de suas dimensões físicas. Ele reside na combinação de uma economia diversificada, de uma agricultura de dimensão mundial, de importantes recursos energéticos e minerais, de um patrimônio ambiental excepcional, de uma posição geográfica estratégica e de uma tradição diplomática que, há várias décadas, busca preservar uma margem de autonomia nas relações entre as grandes potências.

Essa singularidade explica por que o Brasil não pode ser analisado como uma potência regional comum. Suas escolhas econômicas influenciam os mercados agrícolas e energéticos; suas políticas ambientais têm consequências sobre os equilíbrios climáticos e a biodiversidade; suas decisões comerciais afetam as relações entre a América do Sul, a China, os Estados Unidos e a Europa; sua diplomacia participa dos debates sobre a reforma da governança mundial; e seu peso no âmbito dos BRICS e do G20 lhe confere, por fim, uma capacidade de influência que ultrapassa amplamente seu entorno imediato. O Brasil aparece, assim, como um dos poucos Estados cujas escolhas de política interna podem produzir efeitos diretamente internacionais.

A eleição geral de 2026 deve ser compreendida nessa perspectiva. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro de 2026 e o eventual segundo turno para 25 de outubro. O pleito não envolverá apenas a Presidência da República, mas se inscreverá em uma recomposição política mais ampla, que incluirá também os governos estaduais, o Congresso Nacional e os demais cargos eletivos previstos no calendário eleitoral.

A disputa presidencial ocorre, além disso, em um contexto de polarização duradoura. Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo um dos principais polos da vida política brasileira, enquanto Flávio Bolsonaro se consolidou, em 2026, como o principal candidato da direita bolsonarista. As pesquisas divulgadas no início de agosto, entretanto, mostram uma disputa suscetível de evoluir rapidamente. Uma pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto apontava Lula com 42,4% no primeiro turno, contra 28,7% para Flávio Bolsonaro e, em uma hipótese de segundo turno, 48,0% contra 39,1%. Esses números evidentemente não constituem uma previsão eleitoral, mas ilustram o progressivo estreitamento de uma disputa cujo desfecho permanece em aberto.

A dimensão internacional dessa campanha já é evidente. As relações entre Brasília e Washington, as tensões comerciais, a relação estratégica com a China, o papel do Brasil nos BRICS, o futuro do Mercosul e a questão amazônica deixaram de ser temas periféricos da política nacional. Eles participam diretamente da definição do papel que o país pretende desempenhar em uma ordem mundial cada vez mais marcada pela competição entre potências, pela fragmentação comercial, pela transição energética e pelo questionamento de diversos equilíbrios multilaterais. As tensões comerciais com os Estados Unidos, em particular, penetraram na campanha presidencial de 2026 e acrescentaram uma dimensão geopolítica ao debate eleitoral.

O desafio, portanto, vai além da sucessão presidencial. Ele diz respeito à trajetória de uma potência continental que possui recursos consideráveis, mas que ainda precisa transformar plenamente seu peso material em influência estratégica duradoura. O Brasil precisa responder simultaneamente a imperativos de crescimento, estabilidade macroeconômica, redução das desigualdades, segurança, transição energética, proteção ambiental e competitividade internacional. Também precisa arbitrar entre diferentes visões de sua relação com o mundo: autonomia estratégica ou alinhamento mais afirmado, abertura comercial ou proteção dos interesses nacionais, cooperação com as grandes potências ou afirmação de um caminho próprio do Sul Global.

É essa tensão entre potência potencial e escolha estratégica que constitui a questão central deste relatório. O Brasil possui os atributos de uma potência mundial, mas sua influência internacional dependerá menos da quantidade de seus recursos do que de sua capacidade institucional de convertê-los em uma estratégia coerente. A eleição de 2026 poderá, assim, tornar-se um momento de definição: definição do modelo econômico, da trajetória democrática, da política ambiental, da relação com as grandes potências e, de maneira mais ampla, da concepção que o Brasil tem de seu próprio lugar no século XXI.

FICHA DE IDENTIDADE ESTRATÉGICA DO BRASIL

100 INDICADORES ESSENCIAIS PARA COMPREENDER UMA POTÊNCIA CONTINENTAL

A presente ficha será complementada e auditada antes da publicação definitiva do relatório. Cada indicador deverá estar associado a um ano de referência, a uma definição metodológica e a uma fonte identificável. Essa exigência permitirá evitar comparações entre dados provenientes de períodos ou metodologias diferentes.

  • Nome oficial: República Federativa do Brasil.
  • Capital: Brasília.
  • População: 213,4 milhões de habitantes, segundo a estimativa do IBGE para 2025.
    Superfície: aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados. 
  • Regime político: República Federativa presidencialista. 
  • Presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva. 
  • Vice-presidente: Geraldo Alckmin. 
  • Língua oficial: português. 
  • Moeda: real brasileiro.
  • PIB: aproximadamente 12,7 trilhões de reais em 2025, segundo o IBGE. 
  • Crescimento real do PIB em 2025: 2,3%. 
  • Crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2026: 1,1% em relação ao trimestre anterior e 1,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. 
  • Estrutura territorial: 26 estados e um Distrito Federal. 
  • Municípios: 5.570 municípios e o Distrito Federal, segundo a nomenclatura territorial de referência. 
  • Amazônia Legal: aproximadamente 58,9% do território nacional, segundo a definição administrativa adotada. 
  • Litoral: mais de 7.000 quilômetros. 
  • BRICS: membro do grupo original dos BRIC, formado por Brasil, Rússia, Índia e China, posteriormente transformado em BRICS com a entrada da África do Sul em 2011 e ampliado desde então com novos membros. 
  • G20: membro do principal fórum de cooperação econômica internacional que reúne as grandes economias mundiais. 
  • Mercosul: membro fundador e principal potência econômica do bloco. 
  • Organização das Nações Unidas: membro fundador e defensor histórico de uma reforma do Conselho de Segurança que inclua, entre outros objetivos, a ampliação da representação permanente. 
  • Posição internacional: principal potência da América Latina, ator central do Sul Global e potência emergente dotada de capacidade de influência inter-regional.

CRONOLOGIA ESTRATÉGICA

  • 1500: Pedro Álvares Cabral chega às costas do território que hoje corresponde ao Brasil, então habitado por numerosas sociedades e povos indígenas. O acontecimento marca o início da colonização portuguesa do território.
  • 1549: Criação do Governo-Geral e estabelecimento de Salvador como centro administrativo da colônia portuguesa.
  • 1808: Transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro após a invasão de Portugal pelas forças napoleônicas. O acontecimento transforma profundamente a posição política e econômica do território brasileiro.
  • 1822: Proclamação da independência do Brasil por Pedro de Alcântara, que se tornaria Pedro I, inaugurando o período imperial.
  • 1888: Abolição legal da escravidão por meio da Lei Áurea. Essa ruptura histórica põe fim ao último sistema escravista legal das Américas, mas deixa um legado social, econômico e racial cujos efeitos continuam a marcar a sociedade brasileira.
  • 1889: Proclamação da República e fim da monarquia.
  • 1930: Revolução de 1930 e chegada de Getúlio Vargas ao poder. O país entra em uma nova fase de centralização política, industrialização e transformação do Estado.
  • 1964: Golpe militar e estabelecimento de um regime autoritário que se mantém por mais de duas décadas.
  • 1985: Transição para um governo civil com a eleição indireta de Tancredo Neves. Sua morte antes da posse leva José Sarney a exercer a Presidência da República.
  • 1988: Promulgação da Constituição Federal, fundamento da democracia constitucional contemporânea e frequentemente denominada Constituição Cidadã.
  • 1994: Lançamento do Plano Real, que contribui para pôr fim a um longo período de inflação elevada e transforma de maneira duradoura o quadro macroeconômico brasileiro.
  • 2003: Início do primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva e início de uma nova fase de afirmação internacional do Brasil.
  • 2011: Dilma Rousseff torna-se a primeira mulher eleita para a Presidência da República.
  • 2016: Impeachment de Dilma Rousseff e abertura de um período de profunda recomposição institucional e política.
  • 2019: Jair Bolsonaro assume a Presidência e inaugura uma nova fase de polarização política, ideológica e institucional.
  • 2022: Eleição presidencial extremamente disputada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, revelando a profundidade da fratura política brasileira.
  • 2023: Retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República e tentativa de reconstrução dos equilíbrios institucionais, sociais e internacionais do país.
  • 2026: Eleição presidencial e eleições gerais que poderão determinar a próxima orientação política do Brasil e contribuir para redefinir seu papel nas Américas, nos BRICS, no sistema multilateral e na recomposição da ordem mundial.

TESE CENTRAL DO RELATÓRIO

O Brasil não está simplesmente diante de uma nova eleição. Está diante de uma questão de poder. A verdadeira interrogação de 2026 não será apenas saber quem governará Brasília, mas qual concepção de Brasil prevalecerá: a de uma potência que busca reforçar sua autonomia estratégica em um mundo multipolar; a de um país que privilegia uma aproximação mais estreita com determinados polos de poder; ou a de uma democracia ainda em busca de um novo equilíbrio entre crescimento, justiça social, soberania, abertura internacional e estabilidade institucional.

A eleição de 2026 poderá, assim, constituir menos um ponto de chegada do que um revelador. Ela permitirá avaliar até que ponto a democracia brasileira assimilou as lições das sucessivas crises da última década, qual lugar os eleitores desejam atribuir às diferentes concepções de poder nacional e até que ponto o Brasil pretende transformar seu peso continental em influência mundial.

É nessa interseção entre democracia interna e transformação da ordem internacional que começa, verdadeiramente, a história estratégica do Brasil contemporâneo.

POR QUE O BRASIL FASCINA O MUNDO HÁ CINCO SÉCULOS

O Brasil ocupa, há cinco séculos, um lugar singular no imaginário político, cultural e geográfico do mundo. Desde os primeiros relatos europeus dedicados ao território alcançado pelos portugueses em 1500, o país esteve associado à ideia de uma natureza abundante, de um espaço imenso e de uma promessa de renovação. Ao longo dos séculos, essa representação se transformou sem jamais desaparecer. O Brasil tornou-se, simultaneamente, uma terra de potência potencial, uma sociedade moldada por heranças europeias, africanas e indígenas, uma grande democracia do Sul Global, uma potência agrícola e energética, uma reserva ambiental de importância planetária e uma sociedade profundamente atravessada por desigualdades, conflitos sociais e recomposições políticas.

Essa pluralidade de representações explica, em parte, o fascínio que o Brasil exerce sobre o mundo. De um lado, permanece a imagem de um país voltado para o futuro, associada, entre outras referências, à visão desenvolvida por Stefan Zweig em sua obra Brasil, País do Futuro, publicada em 1941. Zweig percebia na experiência brasileira da miscigenação e em sua capacidade de integrar diferentes influências culturais a possibilidade de uma sociedade original. Essa visão, que se tornou célebre, pertence, entretanto, ao seu tempo e não pode ser considerada uma descrição exaustiva da realidade brasileira. Ela frequentemente subestimou ou deixou à margem as estruturas de desigualdade, os legados da escravidão, as discriminações e os conflitos sociais que também moldaram a história do país.

De outro lado, persiste uma representação mais superficial do Brasil como terra do carnaval, do futebol, do samba e das paisagens tropicais. Essa dimensão cultural é real e constitui, inclusive, um dos componentes do poder de atração internacional do país. Ela, porém, está longe de ser suficiente para explicar o poder brasileiro. Por trás dessa imagem encontra-se uma sociedade complexa, uma economia diversificada, um Estado federativo de dimensão continental, uma democracia constitucional, um aparelho produtivo capaz de abastecer os mercados mundiais e uma diplomacia que há muito procura transformar o peso regional do país em influência internacional.

É precisamente essa coexistência entre poder material, diversidade social, vulnerabilidades internas e ambição internacional que faz do Brasil um objeto geopolítico excepcional. Com mais de 213 milhões de habitantes e um território superior a 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o país possui uma profundidade demográfica e territorial comparável à das maiores potências mundiais. Além disso, ocupa uma posição determinante em diversos setores estratégicos. O Brasil tornou-se o maior exportador mundial de soja e representa cerca de 60% do mercado mundial de exportações dessa commodity, enquanto sua agricultura lhe confere um papel central na segurança alimentar internacional.

A esse poder agrícola somam-se recursos energéticos consideráveis, uma indústria diversificada, importantes reservas minerais, um vasto potencial em energias renováveis e uma capacidade crescente de desempenhar um papel nas cadeias de valor associadas à transição energética. Seu território também abriga uma parte essencial da Bacia Amazônica. Aproximadamente 60% do bioma amazônico encontra-se sob jurisdição brasileira, o que confere a Brasília uma responsabilidade ambiental cujas implicações ultrapassam amplamente o âmbito nacional.

O Brasil encontra-se, assim, no cruzamento de várias das grandes transformações do século XXI. É, ao mesmo tempo, uma potência agrícola e um ator da transição ecológica; um grande produtor de hidrocarbonetos e uma potência em energias renováveis; uma democracia constitucional e uma sociedade profundamente polarizada; membro do mundo ocidental por determinadas instituições e relações econômicas, mas também um ator central do Sul Global, dos BRICS e dos debates sobre a reforma da governança internacional.

Essa posição intermediária constitui menos uma fraqueza do que uma possibilidade estratégica. O Brasil pode dialogar com potências e blocos que, entre si, mantêm relações conflituosas. Possui importantes vínculos econômicos com a China, relações históricas e estratégicas com os Estados Unidos, uma antiga relação institucional com a Europa e uma influência particular sobre a América do Sul. Sua diplomacia busca tradicionalmente preservar essa capacidade de diálogo, ao mesmo tempo em que defende maior autonomia estratégica para os países do Sul.

É por isso que a eleição de 2026 merece uma atenção que ultrapassa amplamente as fronteiras brasileiras. O primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro e um eventual segundo turno em 25 de outubro. Os eleitores não escolherão apenas o presidente e o vice-presidente da República. Participarão também da renovação de uma parcela importante da representação política nacional e dos poderes executivos e legislativos dos estados. O pleito constituirá, portanto, simultaneamente, uma disputa presidencial, uma avaliação da trajetória política recente do país e um momento de recomposição institucional.

A verdadeira questão, portanto, não é apenas saber quem vencerá a eleição. Trata-se de determinar qual concepção do poder brasileiro sairá fortalecida das urnas. O próximo governo buscará aprofundar a autonomia estratégica de Brasília em um mundo multipolar? Reforçará determinadas parcerias com as grandes potências? Que lugar atribuirá à China, aos Estados Unidos, à Europa e aos demais membros dos BRICS? Que política adotará em relação à Amazônia, aos recursos naturais, à agricultura e à transição energética? Como responderá à polarização política e às tensões institucionais que marcaram a última década?

Essas questões explicam por que o Brasil já não deve ser observado como um objeto exótico ou como uma simples potência regional. Ele deve ser estudado como um ator estratégico cujas decisões podem influenciar simultaneamente os mercados agrícolas, os equilíbrios energéticos, a governança climática, as relações entre as grandes potências, o futuro da integração sul-americana e a recomposição do sistema multilateral.

O Brasil fascina, portanto, menos por ser misterioso do que por concentrar, em um mesmo espaço político, algumas das grandes contradições de nosso tempo. Democracia e polarização, crescimento e desigualdade, soberania e interdependência, exploração de recursos e preservação ambiental, identidade nacional e abertura ao mundo, potência regional e ambição global encontram-se ali com uma intensidade particular. Compreender o Brasil contemporâneo significa, assim, observar, através de uma única nação, uma parte essencial das tensões que definirão o século XXI.

NOTA METODOLÓGICA

Este relatório estratégico baseia-se em uma abordagem multidisciplinar que combina a análise quantitativa de dados públicos com o exame qualitativo das dinâmicas políticas, econômicas, sociais, ambientais e geopolíticas que estruturam o Brasil contemporâneo. Os dados estatísticos são pesquisados prioritariamente junto às instituições nacionais e internacionais competentes, entre elas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Banco Central do Brasil, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, as Nações Unidas, a OCDE e os organismos especializados do sistema das Nações Unidas. No caso dos dados eleitorais e das pesquisas de opinião, a análise leva sistematicamente em consideração a data de publicação, a metodologia empregada, o tamanho e a composição da amostra, bem como as margens de incerteza. Quando um dado relevante pode variar de acordo com o período de referência ou com o método de cálculo utilizado, essa distinção é explicitamente preservada, a fim de evitar que uma estimativa seja apresentada como um fato estabelecido.

O principal período de referência do relatório abrange 2025 e 2026, com prioridade para os dados mais recentes e verificáveis disponíveis no momento da redação. Projeções de médio e longo prazo poderão ser utilizadas até 2030 e, quando sua metodologia e robustez permitirem, até 2050. Essas projeções, contudo, são claramente diferenciadas dos dados observados. As séries históricas são utilizadas quando sua evolução permite compreender as tendências estruturais que continuam a moldar o Brasil. Essa distinção entre fatos estabelecidos, estimativas, projeções e cenários constitui um princípio essencial da metodologia, a fim de evitar qualquer confusão entre aquilo que já pode ser observado e aquilo que ainda pertence ao campo das hipóteses.

A análise eleitoral baseia-se, em particular, nos resultados de pleitos anteriores, especialmente na eleição presidencial de 2022, nas eleições municipais de 2024 e nas pesquisas de opinião disponíveis em 2026. Esses elementos não são utilizados para pretender prever mecanicamente o resultado da eleição. Servem, antes, para identificar as transformações do comportamento eleitoral, as recomposições partidárias, as fraturas territoriais, as dinâmicas sociais e os fatores suscetíveis de influenciar a disputa presidencial. As eleições gerais de 2026 constituem o marco eleitoral efetivo deste relatório e substituem qualquer referência anterior a uma suposta eleição presidencial de 2028. O Tribunal Superior Eleitoral estabelece oficialmente o primeiro turno para 4 de outubro de 2026 e o eventual segundo turno para 25 de outubro de 2026.

A dimensão geopolítica do relatório incorpora as principais variáveis capazes de influenciar a trajetória internacional do Brasil: a evolução da competição entre os Estados Unidos e a China, a transformação do sistema comercial mundial, a recomposição dos BRICS, o futuro do Mercosul, a transição energética, a segurança alimentar, as políticas climáticas, a evolução da guerra na Ucrânia, a transformação das relações de poder e os debates sobre a reforma das instituições multilaterais. A Amazônia, por sua vez, é analisada simultaneamente como espaço ecológico, território soberano, questão econômica, tema de segurança, objeto diplomático e fator de poder internacional. Essa abordagem permite evitar que a questão amazônica seja reduzida à sua dimensão ambiental e inseri-la no conjunto das relações de poder que determinam o lugar do Brasil no mundo.

Os cenários prospectivos apresentados no relatório não constituem previsões. São construções analíticas destinadas a examinar diferentes trajetórias plausíveis em função da evolução das variáveis políticas, econômicas, sociais, ambientais e internacionais. Cada cenário é, portanto, distinguido dos fatos estabelecidos e, quando pertinente, apresentado segundo suas condições de realização, seu grau de plausibilidade, seus principais fatores de risco e suas possíveis consequências. O objetivo não é pretender conhecer o futuro, mas compreender melhor as diferentes direções que os acontecimentos poderão tomar.

A metodologia também se fundamenta no princípio do cruzamento sistemático das fontes. Quando um dado ou uma afirmação desempenha papel significativo na argumentação, ele é, sempre que possível, confrontado com várias fontes independentes, a fim de reduzir os riscos de erro estatístico, viés institucional ou interpretação excessiva. As pesquisas de opinião são consideradas fotografias pontuais da opinião pública em determinado momento, e não previsões certas do comportamento eleitoral. Da mesma forma, as declarações políticas são distinguidas das decisões efetivamente adotadas, os anúncios das políticas implementadas e as projeções econômicas dos resultados já observados. Essa disciplina metodológica é particularmente importante em um ambiente político no qual narrativas, percepções e informações circulam, por vezes, mais rapidamente do que os fatos verificáveis.

A ambição da CPGNNews é, assim, conciliar duas exigências que frequentemente são apresentadas como incompatíveis: o rigor analítico e a clareza jornalística. O relatório foi concebido para poder ser consultado tanto por pesquisadores quanto por responsáveis políticos, diplomatas, atores econômicos, jornalistas e cidadãos interessados em compreender as transformações do Brasil e suas implicações internacionais. Por isso, privilegia a análise das relações de poder, dos interesses estratégicos, das estruturas de longo prazo e das tendências de fundo, sem deixar de acompanhar os acontecimentos suscetíveis de modificar rapidamente as trajetórias identificadas.

Essa abordagem também envolve uma exigência de transparência intelectual. Quando um dado permanece incerto, quando uma projeção depende de determinadas hipóteses ou quando uma interpretação é objeto de debates relevantes, o relatório procura preservar essa incerteza em vez de ocultá-la por trás de uma aparente precisão. A credibilidade de uma análise estratégica não reside em sua pretensão de saber tudo, mas em sua capacidade de distinguir claramente aquilo que está estabelecido, aquilo que é provável e aquilo que permanece possível. É nesse espaço entre conhecimento e incerteza que deve ser construída uma verdadeira leitura prospectiva.

O objetivo final, portanto, não é prever o futuro do Brasil. É mais exigente: construir uma estrutura de análise suficientemente documentada, crítica e prospectiva para permitir compreender as escolhas diante das quais o país se encontra e avaliar suas possíveis consequências para a América Latina, o Sul Global e a ordem internacional. Nessa perspectiva, o Brasil de 2026 não é apenas o cenário de uma eleição. Constitui um observatório privilegiado das transformações políticas, econômicas, ambientais e geopolíticas suscetíveis de definir as próximas décadas.

VISÃO DE CONJUNTO

O Brasil não é apenas um Estado. É, ao mesmo tempo, uma potência continental, uma sociedade de dimensões quase continentais, uma civilização política e cultural singular, uma economia de primeira grandeza, um espaço de recursos estratégicos e uma promessa ainda inacabada. Essa multiplicidade constitutiva torna particularmente difícil qualquer tentativa de síntese e ajuda a explicar por que os olhares estrangeiros tantas vezes oscilaram entre o fascínio, a romantização e a condescendência. O Brasil foi durante muito tempo apresentado como o país do futuro, ao mesmo tempo em que permanecia confrontado com desigualdades sociais persistentes; como uma das democracias eleitorais tecnologicamente mais avançadas do mundo, enquanto atravessava um período de profunda polarização política; como a principal potência econômica da América Latina, mas ainda marcada por importantes disparidades sociais e territoriais; e como uma potência energética amplamente baseada em fontes renováveis, embora continue sendo um grande produtor de hidrocarbonetos e um país no qual as mudanças no uso da terra e o desmatamento desempenham papel determinante em seu balanço climático.

Essa coexistência de forças aparentemente contraditórias constitui precisamente uma das chaves para compreender o Brasil contemporâneo. O país dispõe de um sistema eleitoral que utiliza o voto eletrônico em escala nacional desde 1996, de instituições constitucionais consolidadas desde a Constituição de 1988 e de uma sociedade civil capaz de promover mobilizações políticas de grande dimensão. Essa arquitetura democrática, entretanto, também foi submetida a fortes tensões ao longo da última década, especialmente em torno da polarização ideológica, da desconfiança institucional, da desinformação e dos confrontos políticos que culminaram nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. O paradoxo brasileiro, portanto, não reside em uma oposição entre democracia e autoritarismo como duas realidades perfeitamente separadas, mas na capacidade de uma democracia constitucional de absorver uma polarização suficientemente intensa para colocar suas instituições sob pressão sem, por isso, perder sua capacidade de funcionamento.

A mesma complexidade aparece no campo energético e ambiental. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias mundiais, graças principalmente à hidreletricidade, à energia eólica e à solar. Seu papel climático, entretanto, não pode ser avaliado apenas a partir da produção de eletricidade. As mudanças no uso da terra, o desmatamento, a agricultura e a exploração dos recursos naturais ocupam posição determinante em suas emissões. Essa realidade coloca o país em uma posição paradoxal: pode ser, simultaneamente, um ator de primeira importância na transição energética e um Estado cujas políticas relativas às florestas, à agricultura e ao uso da terra produzem consequências diretas para os objetivos climáticos globais.

O mesmo paradoxo está presente na economia. O Brasil é a principal potência econômica da América Latina e uma das grandes potências agrícolas do planeta. Possui uma importante base industrial, recursos minerais consideráveis, uma indústria energética desenvolvida e uma capacidade exportadora que o coloca no centro de diversos mercados mundiais. Essa potência macroeconômica, contudo, coexiste com desigualdades de renda, disparidades regionais, elevada informalidade e dificuldades persistentes em matéria de mobilidade social. A questão brasileira, portanto, não consiste simplesmente em saber se o país pode produzir mais riqueza, mas se será capaz de transformar de maneira duradoura sua capacidade produtiva em desenvolvimento humano, coesão social e capacidade estratégica.

É nesse ambiente complexo que se insere a eleição geral de 2026. O primeiro turno está previsto para 4 de outubro e o eventual segundo turno para 25 de outubro. A disputa presidencial colocará em confronto diferentes visões sobre o futuro do país, mas não pode ser reduzida a uma oposição mecânica entre dois blocos ideológicos perfeitamente homogêneos. Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo o principal representante de uma esquerda institucional que enfatiza a redução das desigualdades, a proteção social, o multilateralismo, a autonomia estratégica e a proteção da Amazônia. Do outro lado, a direita brasileira se estrutura em torno de um conjunto mais amplo de correntes conservadoras, liberais, nacionalistas e bolsonaristas, entre as quais Flávio Bolsonaro constitui, em 2026, uma das principais figuras presidenciais.

Essa distinção é essencial. Apresentar a disputa como uma simples confrontação entre “Lula e Flávio Bolsonaro” poderia ocultar a diversidade das forças políticas brasileiras, os interesses econômicos que as atravessam, as diferenças entre estados e regiões, assim como o papel decisivo do Congresso Nacional, dos governadores, das coalizões partidárias e dos eleitorados intermediários. O Brasil é uma democracia federal complexa, na qual o poder presidencial, embora considerável, permanece sujeito a negociações institucionais, parlamentares e territoriais permanentes.

A dimensão internacional, entretanto, é considerável. O próximo governo deverá definir a maneira como Brasília pretende administrar suas relações com os Estados Unidos e a China, dois parceiros cujo peso econômico e estratégico é determinante para o Brasil. Também deverá definir sua política em relação aos BRICS, ao Mercosul, à União Europeia e às instituições multilaterais. Terá de conciliar a defesa da autonomia estratégica brasileira com a necessidade de preservar o acesso aos mercados, aos investimentos, às tecnologias e às cadeias globais de valor. Deverá, finalmente, determinar até que ponto o Brasil deseja transformar seu peso ambiental e agrícola em influência diplomática.

A questão amazônica estará no centro dessa equação. A Amazônia não é apenas uma floresta a ser preservada. Ela constitui, simultaneamente, um território soberano, um espaço econômico, um sistema ecológico essencial, uma fronteira interna, uma questão de segurança, uma realidade fundamental para os povos indígenas e um dos principais objetos de negociação internacional. A política amazônica do próximo governo terá, portanto, consequências para as relações diplomáticas do Brasil, sua reputação internacional, suas exportações agrícolas e minerais e sua capacidade de participar da governança climática mundial.

A eleição de 2026, por si só, não determinará os próximos vinte anos da história brasileira. Ela poderá, contudo, abrir uma nova fase. Poderá fortalecer determinadas orientações já existentes, enfraquecer outras ou provocar novas recomposições. Sua importância reside precisamente nessa capacidade de modificar as relações de força entre diferentes concepções de democracia, desenvolvimento, soberania e lugar do Brasil no mundo.

A verdadeira questão colocada pelo pleito, portanto, é mais profunda do que a identidade do próximo presidente. Ela diz respeito à maneira como uma potência continental pretende converter seus recursos em influência, sua diversidade em coesão, sua soberania em autonomia estratégica e seu peso econômico em capacidade de ação internacional. O Brasil também terá de determinar como conciliar sua ambição de potência com as restrições de um mundo no qual as questões climáticas, alimentares, energéticas, tecnológicas e de segurança estão agora estreitamente interligadas.

Este relatório propõe examinar essa transformação em toda a sua complexidade. Não buscará idealizar o Brasil nem reduzi-lo às suas contradições. Procurará compreender as forças que o estruturam, as fraturas que o atravessam, os interesses que determinam suas escolhas e os cenários que poderão emergir após o pleito de 2026. O objetivo não é apenas compreender quem poderá governar o Brasil, mas compreender qual Brasil poderá emergir dessa nova confrontação política e qual lugar esse Brasil poderá ocupar nas Américas e na ordem internacional do século XXI.

O Brasil, portanto, não está simplesmente às vésperas de uma eleição. Encontra-se em um momento no qual democracia, poder, soberania, desenvolvimento e responsabilidade internacional se encontram. É precisamente essa interseção que faz da eleição de 2026 um acontecimento cuja importância poderá ultrapassar amplamente as fronteiras do país.

O ESTADO, AS INSTITUIÇÕES E OS CENTROS DE PODER

Cartografia dos equilíbrios reais do poder brasileiro

O Brasil é uma república federativa presidencialista cuja arquitetura institucional se fundamenta na Constituição de 1988, adotada ao final da transição que pôs fim a vinte e um anos de regime militar. Essa Constituição estabeleceu um sistema de separação de poderes no qual Executivo, Legislativo e Judiciário dispõem de competências distintas, ao mesmo tempo em que estão inseridos em uma estrutura federativa que confere aos estados e municípios importante autonomia política e administrativa. A análise do poder brasileiro, porém, não pode se limitar à leitura das instituições formais. A realidade política resulta de um conjunto muito mais complexo de interações entre a Presidência da República, o Congresso Nacional, o Poder Judiciário, os governos estaduais, as Forças Armadas, os atores econômicos, as organizações da sociedade civil, os meios de comunicação e, em determinadas regiões, as redes criminosas. É precisamente essa combinação entre instituições constitucionais e relações de força sociais que explica, ao mesmo tempo, a resiliência da democracia brasileira e as tensões que a atravessam. O Brasil não é, portanto, um Estado institucionalmente frágil no sentido clássico do termo; é antes uma democracia de grande complexidade, na qual a capacidade do Poder Executivo de governar depende amplamente de sua habilidade para construir compromissos entre numerosos centros de poder, autônomos e, por vezes, antagônicos.

As Forças Armadas: uma instituição constitucional sob vigilância democrática

As Forças Armadas ocupam uma posição particular nessa arquitetura. A Constituição de 1988 as define como instituições nacionais permanentes e regulares, submetidas à autoridade suprema do Presidente da República e encarregadas da defesa da Pátria, bem como da garantia dos poderes constitucionais e, nas condições previstas em lei, da lei e da ordem. Essa disposição, especialmente seu artigo 142, foi objeto de interpretações políticas controversas nos últimos anos, com alguns setores tentando apresentá-la como fundamento para uma intervenção militar em caso de crise institucional. Essa interpretação, contudo, não corresponde a uma autorização geral para que as Forças Armadas substituam as instituições civis. O princípio constitucional permanece sendo o da subordinação da instituição militar ao poder civil eleito.

A experiência da presidência de Jair Bolsonaro demonstrou, entretanto, que a relação entre os militares e a política civil continua sendo uma das questões mais sensíveis da democracia brasileira. A presença de ex-militares e de altos responsáveis oriundos das Forças Armadas na administração federal, assim como os debates provocados pelas posições de determinados setores militares durante e após a eleição de 2022, reavivaram uma questão que a transição democrática jamais havia completamente apagado: até onde pode chegar a influência política de uma instituição que conserva enorme prestígio histórico e permanece profundamente associada à ideia de soberania nacional? A resposta dada desde 2023 foi a de um retorno mais claro à subordinação institucional, mas a questão continua sendo estrategicamente importante às vésperas do pleito de 2026. É, portanto, menos apropriado falar de um Exército constituindo um poder paralelo do que de uma instituição cuja neutralidade política, coesão interna e relação com o poder civil constituem indicadores essenciais da solidez democrática brasileira. Os documentos oficiais de defesa recentemente adotados continuam, aliás, situando a defesa nacional no âmbito da Constituição e da política de Estado.

O Supremo Tribunal Federal: árbitro constitucional e ator central da crise política

O Supremo Tribunal Federal, o STF, ocupa uma posição igualmente singular. Concebido, antes de tudo, como a mais alta corte encarregada de garantir a Constituição, tornou-se, nos últimos anos, um ator incontornável dos conflitos políticos brasileiros. Essa evolução decorre menos de uma transformação formal de suas competências do que da multiplicação de crises institucionais, ações constitucionais e investigações envolvendo autoridades políticas, redes de desinformação e supostos ataques à ordem democrática. O STF passou, assim, a ocupar o centro de diversas controvérsias com setores conservadores, mas também de debates mais amplos sobre os limites do poder judiciário em uma democracia fortemente polarizada.

Essa situação alimenta uma tensão fundamental. De um lado, o papel ativo da Corte contribuiu para proteger as instituições constitucionais em momentos nos quais estavam submetidas a fortes pressões. De outro, a ampliação de sua intervenção em questões politicamente sensíveis alimenta, em determinados setores da sociedade, a acusação de uma judicialização excessiva da vida pública. A questão, portanto, não consiste simplesmente em saber se o STF se tornou “poderoso demais”, mas em compreender por que a justiça constitucional foi progressivamente chamada a ocupar um espaço tão importante em uma democracia na qual o conflito entre Executivo, Legislativo e oposição se intensificou. As futuras nomeações para a Corte assumem, nesse contexto, importância particular, pois os ministros do STF permanecem em suas funções até a aposentadoria compulsória aos 75 anos e suas nomeações podem, consequentemente, influenciar durante longo período a interpretação da Constituição.

O Congresso: a verdadeira prova de governabilidade

O Congresso Nacional constitui o segundo grande teatro do poder brasileiro. É composto por uma Câmara dos Deputados de 513 membros e por um Senado Federal de 81 membros. As duas Casas, entretanto, não funcionam segundo o mesmo mecanismo eleitoral: os deputados são eleitos pelo sistema proporcional, enquanto os senadores são eleitos pelo sistema majoritário e representam, em condições de igualdade, os 26 estados e o Distrito Federal. Essa distinção é essencial para compreender a dinâmica federativa brasileira.

A fragmentação partidária torna extremamente difícil a formação de uma maioria presidencial estável. Nenhum presidente pode governar razoavelmente tratando o Congresso como uma simples câmara de registro de seu programa. O sistema brasileiro funciona antes segundo uma lógica de presidencialismo de coalizão, na qual o chefe de Estado precisa construir maiorias parlamentares por meio da negociação de políticas públicas, responsabilidades institucionais e recursos orçamentários. O fenômeno do Centrão ilustra essa realidade. Ele não constitui uma ideologia homogênea, mas antes um espaço parlamentar pragmático cujos integrantes podem negociar com governos de diferentes orientações. Essa plasticidade representa simultaneamente uma força e uma fraqueza: permite evitar a paralisia política em um sistema fragmentado, mas também pode favorecer o fisiologismo, dificultar reformas estruturais e afastar a decisão pública das grandes divisões ideológicas apresentadas durante as campanhas eleitorais. A capacidade do próximo presidente de construir uma coalizão parlamentar será, portanto, provavelmente tão determinante quanto seu desempenho no segundo turno.

As elites econômicas: poder produtivo e capacidade de influência

O poder econômico constitui outro centro de gravidade essencial. O agronegócio, os bancos, a indústria de mineração, o setor energético, a construção civil, as telecomunicações e as grandes empresas nacionais dispõem de considerável capacidade de influência sobre as políticas públicas. Essa influência, contudo, não deve ser interpretada como a existência de um bloco econômico unificado que controle o Estado. Os interesses do setor agrícola nem sempre coincidem com os dos bancos; os interesses da indústria não necessariamente correspondem aos dos exportadores de commodities; e as próprias empresas brasileiras podem divergir em questões comerciais, fiscais, ambientais ou monetárias.

O agronegócio ocupa, ainda assim, uma posição particularmente estratégica. Constitui simultaneamente uma fonte fundamental de exportações, um elemento central da segurança alimentar mundial e um ator político fortemente organizado. Esse poder econômico cria uma tensão estrutural com as políticas de proteção ambiental, especialmente nas regiões onde a expansão agrícola entra em conflito com a conservação das florestas e os direitos territoriais dos povos indígenas. O setor financeiro, por sua vez, exerce influência considerável nos debates sobre taxas de juros, disciplina fiscal, tributação e estabilidade monetária. O verdadeiro desafio, portanto, não é a existência de uma “elite econômica” monolítica, mas a capacidade de diferentes interesses econômicos de transformar seu peso produtivo em influência política.

A questão do financiamento eleitoral também deve ser recolocada em seu contexto contemporâneo. O financiamento direto das campanhas por empresas foi proibido após decisão do Tribunal Superior Eleitoral e a evolução do marco legal em meados da década de 2010. O sistema passou então a depender, entre outros mecanismos, de recursos públicos e de contribuições individuais submetidas a regras específicas. O desafio analítico, portanto, diz menos respeito a um financiamento oficial dos partidos pelas empresas do que às redes de influência, aos grupos de pressão, às relações entre parlamentares e setores econômicos e à capacidade dos diferentes interesses organizados de influenciar a formulação das políticas públicas.

O crime organizado e os poderes territoriais informais

Uma democracia da escala do Brasil não pode ser compreendida sem levar em consideração o poder crescente de determinadas organizações criminosas. O fenômeno ultrapassa amplamente o tráfico de drogas. Abrange também lavagem de dinheiro, exploração ilegal de recursos naturais, garimpo clandestino, determinadas redes de desmatamento, contrabando e diversas formas de controle territorial. Organizações como o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho dispõem de redes que ultrapassam seus territórios de origem e demonstraram capacidade de organizar atividades criminosas em escala nacional e transnacional.

O fenômeno das milícias acrescenta uma dimensão particularmente complexa. Em algumas regiões, especialmente no estado do Rio de Janeiro, grupos compostos por, ou historicamente ligados a, antigos agentes das forças de segurança desenvolveram formas de controle territorial e econômico que tornam difusa a fronteira entre crime organizado, poder local e coerção. O problema estratégico, portanto, não está apenas no número de homicídios ou na força das organizações criminosas, mas na sua capacidade de penetrar economias locais, exercer influência social e enfraquecer o monopólio institucional do Estado. Essa realidade constitui um dos principais desafios de governança do Brasil contemporâneo e necessariamente estará no centro de qualquer campanha presidencial séria.

A sociedade civil: o contrapoder democrático

Diante desses centros de poder institucionais, econômicos e informais, a sociedade civil brasileira continua sendo um dos elementos mais dinâmicos do sistema democrático. Sindicatos, organizações indígenas, movimentos de trabalhadores rurais, associações comunitárias, organizações ambientais, movimentos feministas e diferentes entidades de defesa dos direitos dispõem de capacidades de mobilização variadas, mas reais. Sua influência não se mede apenas pelo número de cadeiras parlamentares para as quais podem contribuir indiretamente para eleger representantes. Ela também se manifesta na capacidade de transformar determinadas questões sociais em temas nacionais, influenciar os meios de comunicação, recorrer às instituições judiciais e inserir determinadas pautas na agenda política.

Os movimentos indígenas e ambientais ocupam, em particular, um espaço crescente na diplomacia climática brasileira. As organizações rurais continuam a colocar em primeiro plano a questão da concentração fundiária e da reforma agrária, enquanto os sindicatos conservam influência particular nas regiões industriais e urbanas. Essa sociedade civil, contudo, não constitui um bloco político homogêneo. Pode apoiar o governo em determinadas questões e criticá-lo em outras, permanecendo atravessada pelas mesmas fraturas ideológicas, sociais, religiosas e territoriais que caracterizam a sociedade brasileira em seu conjunto.

O verdadeiro centro de gravidade: o equilíbrio entre os poderes

A análise do Brasil contemporâneo conduz, assim, para além da imagem simplificadora de um confronto entre uma esquerda personificada por Lula e uma direita herdeira do bolsonarismo. A verdadeira disputa diz respeito à capacidade do sistema político de manter um equilíbrio entre múltiplos centros de poder, nenhum dos quais pode governar sozinho de maneira duradoura. A Presidência possui uma capacidade considerável de impulsão, mas depende do Congresso para legislar e financiar suas políticas. O Congresso dispõe de capacidade de bloqueio e negociação, mas permanece submetido ao controle constitucional. O STF pode proteger as instituições, mas seu ativismo também alimenta uma controvérsia sobre as fronteiras do poder judiciário. As Forças Armadas conservam peso simbólico e estratégico significativo, mas sua legitimidade democrática depende precisamente de sua subordinação ao poder civil. Os atores econômicos dispõem de recursos consideráveis, mas sua influência é limitada pela pluralidade de interesses e pelas instituições. Por fim, a sociedade civil permanece suficientemente forte para impedir que o sistema político seja reduzido a um simples duelo entre elites.

É nesse equilíbrio instável que deve ser analisada a eleição presidencial de 2026. O verdadeiro desafio não será apenas determinar quem ocupará o Palácio do Planalto, mas saber se o próximo governo será capaz de transformar uma vitória eleitoral em capacidade efetiva de governar, sem romper o equilíbrio constitucional, sem aprofundar as fraturas sociais e sem sacrificar a posição internacional do Brasil. Em uma potência continental com mais de duzentos milhões de habitantes, a questão do poder jamais se resume àquele que vence a eleição. Ela também reside na capacidade do vencedor de construir uma legitimidade duradoura dentro de um sistema no qual o poder está disperso, é negociado e permanece constantemente contestado.

AS FRATURAS SOCIOECONÔMICAS

O Brasil das desigualdades territoriais, sociais e culturais

A potência brasileira não pode ser compreendida a partir de seus indicadores macroeconômicos isoladamente. Por trás do tamanho de sua economia, da extensão de seu território e de seu peso demográfico encontra-se uma sociedade profundamente estratificada, na qual as diferenças de renda, patrimônio, acesso aos serviços públicos, oportunidades educacionais e representação política continuam a estruturar as trajetórias individuais e os comportamentos coletivos. O Brasil realizou progressos consideráveis na redução da pobreza e na ampliação do acesso aos serviços essenciais ao longo das últimas duas décadas, mas esses avanços não eliminaram os mecanismos históricos de reprodução das desigualdades. Os dados disponíveis revelam, ao contrário, uma sociedade na qual o crescimento econômico, quando não é acompanhado por transformações institucionais e sociais suficientemente profundas, pode coexistir com uma forte concentração de renda e com disparidades territoriais persistentes. Em 2023, o coeficiente de Gini da renda domiciliar per capita situava-se em 0,518, segundo o IBGE, um nível que permanece elevado apesar do efeito redistributivo das transferências sociais. Sem essas transferências, o IBGE estima que o coeficiente teria alcançado 0,555.

Essa realidade, contudo, deve ser analisada com maior precisão do que por meio de uma simples oposição entre ricos e pobres. As fraturas brasileiras são multidimensionais e se sobrepõem. Elas opõem regiões cujos níveis de renda, infraestrutura e produtividade permanecem muito diferentes; separam os centros metropolitanos fortemente integrados à economia mundial das periferias urbanas onde o acesso aos serviços continua mais precário; reproduzem, em parte, as consequências históricas da escravidão na distribuição da renda e das oportunidades; e atravessam, por fim, as identidades religiosas, as gerações e os territórios eleitorais. Os dados mais recentes do IBGE continuam ilustrando a profundidade da fratura regional. Em 2025, a renda domiciliar nominal per capita alcançava R$ 2.316 no conjunto do país, mas apenas R$ 1.484 no Nordeste e R$ 1.568 no Norte, contra R$ 2.772 no Centro-Oeste. Essa geografia da renda constitui um dos determinantes estruturais da política brasileira, sem, contudo, autorizar uma leitura mecânica do voto. Os comportamentos eleitorais também resultam da urbanização, da religião, das identidades políticas, das redes locais, da estrutura profissional e da história própria de cada estado.

A fratura territorial permanece particularmente visível entre o Norte e o Nordeste, de um lado, e as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, de outro. Essa oposição, entretanto, não deve ser reduzida a uma simples divisão entre uma região pobre e uma região rica. O Centro-Oeste, por exemplo, adquiriu importância estratégica considerável graças à agricultura comercial, à pecuária e à integração das cadeias de exportação, enquanto o Sul e o Sudeste concentram grande parte das atividades industriais, financeiras, tecnológicas e universitárias do país. Em contrapartida, o Norte e o Nordeste ainda apresentam déficits mais significativos em matéria de renda, infraestrutura, saneamento e formalização do emprego. Essa geografia econômica influencia necessariamente as prioridades políticas: nos territórios onde a segurança alimentar, o acesso à água, o emprego formal e as transferências sociais ocupam lugar central, as políticas redistributivas assumem um significado diferente daquele que adquirem nas regiões onde predominam a indústria, os serviços financeiros, o agronegócio ou as atividades tecnológicas.

As grandes metrópoles concentram outra dimensão dessa fratura. São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza e Manaus são, simultaneamente, centros de riqueza, inovação e integração internacional e espaços nos quais as desigualdades territoriais podem ser observadas a poucos quilômetros de distância. As favelas e comunidades urbanas, contudo, não devem ser descritas como simples zonas marginais exteriores à cidade. Elas constituem uma componente duradoura do tecido urbano brasileiro, com suas economias locais, associações, redes comunitárias, práticas culturais e formas próprias de mobilização política. O Censo de 2022 identificou aproximadamente 16,4 milhões de pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, o equivalente a cerca de 8% da população do país. Essa realidade exige que se ultrapassem as representações simplistas que associam automaticamente esses territórios à pobreza ou à criminalidade. Seu principal desafio estratégico reside, antes, na capacidade do Estado de garantir de maneira igualitária a segurança, a educação, a saúde, a habitação, o saneamento, a mobilidade e os direitos de propriedade. O problema, portanto, não é a existência das favelas em si, mas a persistência de uma cidadania urbana distribuída de maneira desigual.

A questão da violência insere-se nessa arquitetura social sem poder ser inteiramente reduzida a ela. O Brasil continua enfrentando um nível de violência letal excepcionalmente elevado, embora os homicídios tenham diminuído em relação a alguns de seus picos históricos. Os dados do Atlas da Violência registram ainda mais de 42 mil homicídios em 2024, o que evidencia a dimensão do problema sem justificar comparações espetaculares com zonas de guerra. A violência é fortemente territorializada e atinge de maneira desproporcional determinadas populações jovens, negras e socialmente vulneráveis. Ela é alimentada pelo crime organizado, pelos mercados ilícitos, pelos conflitos territoriais, pela circulação de armas, pela fragilidade de determinadas instituições locais e pelas dificuldades persistentes de coordenação entre os diferentes níveis de governo. A essa violência criminal soma-se a questão da letalidade policial e da confiança nas instituições de segurança. O desafio para o próximo ciclo político, portanto, não consiste simplesmente em prometer mais repressão ou mais prevenção, mas em construir uma política de segurança capaz de combinar eficácia operacional, inteligência, prevenção social, controle institucional e respeito ao Estado de Direito.

A fratura racial constitui outra dimensão fundamental da estrutura social brasileira. A sociedade brasileira é profundamente marcada por sua história escravista e pelas formas de estratificação que sobreviveram à abolição de 1888. As categorias estatísticas do IBGE permitem medir essas diferenças por meio dos grupos declarados brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas. Os dados disponíveis revelam a persistência de diferenças de renda, acesso à educação, condições de moradia e posição no mercado de trabalho. Um estudo do IBGE demonstra, em particular, que pessoas pretas e pardas continuam amplamente sobrerrepresentadas entre as populações pobres e que as diferenças de remuneração persistem mesmo quando o nível de escolaridade é comparável. Essa realidade não significa que a sociedade brasileira possa ser analisada exclusivamente pelo prisma racial, mas demonstra que a questão racial continua indissociável da questão social. As políticas de cotas no ensino superior e em determinadas instituições públicas contribuíram para modificar progressivamente a composição social de espaços que anteriormente eram muito mais fechados, mas sua eficácia, seus limites e sua legitimidade continuam sendo objeto de importante debate político.

A questão religiosa acrescenta uma dimensão cultural e eleitoral particularmente importante a essas fraturas. O Brasil continua sendo uma sociedade profundamente religiosa, mas sua composição confessional está mudando rapidamente. O recuo relativo do catolicismo e o crescimento das igrejas evangélicas transformaram os equilíbrios culturais e políticos do país. Seria, contudo, equivocado considerar os evangélicos como um bloco eleitoral homogêneo ou automaticamente alinhado à direita. As comunidades evangélicas reúnem sensibilidades teológicas, sociais e políticas diversas, e seus comportamentos eleitorais podem variar segundo as regiões, as gerações, as classes sociais e as orientações de suas lideranças religiosas. Sua influência permanece, entretanto, estratégica porque se situa na interseção entre religião, comunicação política, redes comunitárias e mobilização eleitoral. O Censo de 2022 constitui atualmente a principal referência estatística para analisar essa transformação do panorama religioso brasileiro.

Essas fraturas sociais não significam, portanto, que o Brasil esteja condenado à imobilidade. Elas constituem, antes, o principal campo de batalha de sua transformação nacional. O país dispõe de uma capacidade econômica, agrícola, energética, científica e diplomática considerável, mas a consolidação dessa potência dependerá de sua capacidade de converter seus recursos em mobilidade social, produtividade inclusiva e serviços públicos mais eficientes. Os indicadores recentes mostram, aliás, que a situação não está congelada. Em 2025, a renda real mensal média da população com rendimento atingiu um nível recorde na série disponível, enquanto o desemprego evoluiu em níveis historicamente baixos no período recente. O desafio agora consiste em determinar se esses avanços poderão ser transformados em uma tendência estrutural, e não apenas em uma melhora conjuntural.

É nesse ponto que a questão eleitoral se conecta diretamente à questão geopolítica. O próximo ciclo presidencial não tratará apenas da personalidade do chefe de Estado ou da oposição entre esquerda e direita. Ele colocará em jogo duas concepções do contrato social brasileiro: uma que enfatiza mais fortemente a redistribuição, a proteção social, a inclusão e o papel regulador do Estado; outra que privilegia a segurança, a responsabilidade individual, a liberdade econômica, a redução da carga tributária e a ampliação do papel do setor privado. Entre essas duas orientações existe um amplo espaço político no qual se definirá parte do futuro do Brasil. A questão fundamental, portanto, não será apenas saber quem governará Brasília, mas se o próximo ciclo político será capaz de reduzir a distância entre a potência internacional do Brasil e as desigualdades que continuam atravessando sua sociedade. É nessa tensão entre potência e coesão que se encontra uma das chaves de seu futuro no século XXI.

O BRASIL NO MUNDO

A dança entre a China, os Estados Unidos e as potências da nova ordem mundial

A política externa brasileira constitui um dos mais complexos exercícios de equilíbrio da geopolítica contemporânea. O Brasil não é nem uma potência ocidental clássica, nem uma potência asiática, nem um país periférico do sistema internacional. Ele pertence simultaneamente a vários espaços estratégicos: à América Latina, ao mundo ocidental por suas instituições e seus vínculos históricos, ao Sul Global por sua experiência de desenvolvimento, aos BRICS por sua ambição de transformação da governança mundial e ao sistema comercial global pela dimensão de suas relações com as principais economias do planeta. Essa posição explica a permanência de uma doutrina diplomática baseada na autonomia, na diversificação das parcerias e na busca pela máxima margem de manobra possível entre os grandes polos de poder. A questão central para o Brasil, portanto, não é escolher entre Pequim e Washington, mas determinar até que ponto pode aprofundar suas relações com cada um deles sem comprometer sua soberania estratégica.

Essa lógica assume particular importância na aproximação de 2028. A próxima eleição presidencial não tratará apenas de política interna. Ela também poderá modificar o tom, as prioridades e os instrumentos da diplomacia brasileira, sem, contudo, eliminar as restrições estruturais que se impõem a qualquer governo. A China continuará sendo um parceiro econômico essencial, os Estados Unidos permanecerão como uma potência incontornável nas Américas, a União Europeia conservará um peso comercial e normativo considerável, enquanto os BRICS oferecerão ao Brasil um espaço particularmente importante de projeção diplomática. Nesse contexto, a verdadeira questão será menos a de uma mudança de um campo para outro do que a do grau de autonomia estratégica que Brasília procurará preservar.

A China: o parceiro econômico incontornável

A China ocupa uma posição central na economia externa brasileira. Tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil e constitui, particularmente, um importante mercado para seus produtos agrícolas e suas matérias-primas. Os dados oficiais brasileiros confirmam essa posição dominante: em 2025, a China representou, sozinha, 32,7% das exportações brasileiras de produtos agroalimentares, à frente da União Europeia e dos Estados Unidos. Essa relação baseia-se em uma poderosa complementaridade econômica: o Brasil fornece, entre outros produtos, soja, carne, minério de ferro, petróleo e outras matérias-primas, enquanto a China exporta para o mercado brasileiro bens manufaturados, equipamentos, tecnologias e produtos de maior valor agregado.

Essa complementaridade constitui, ao mesmo tempo, uma força e uma vulnerabilidade. Ela garante ao Brasil acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo e sustenta fortemente seus superávits comerciais, mas também mantém uma estrutura de intercâmbio na qual os produtos primários ocupam um espaço considerável. A questão estratégica, portanto, já não é simplesmente saber se o Brasil deve comercializar com a China — essa relação tornou-se importante demais para ser facilmente colocada em causa —, mas como poderá evitar que uma dependência comercial se transforme em dependência tecnológica ou industrial.

A presença chinesa no Brasil, aliás, ultrapassa o comércio. Os investimentos e as parcerias chinesas abrangem, entre outros setores, energia, infraestrutura, transportes, telecomunicações e diferentes segmentos industriais. Para Brasília, essa presença pode contribuir para acelerar o desenvolvimento da infraestrutura e a modernização produtiva. Ela, contudo, também suscita questões de soberania, segurança econômica e controle de setores estratégicos. A resposta brasileira, até o momento, consistiu menos em fechar as portas à China do que em multiplicar seus parceiros, a fim de evitar uma dependência exclusiva.

Essa abordagem explica também por que uma eventual alternância política em 2028 provavelmente não deverá conduzir a uma ruptura brusca com Pequim. Mesmo um governo que desejasse fortalecer suas relações com Washington teria interesse em preservar os vínculos comerciais com a China. A geografia econômica impõe, nesse caso, limites importantes à geopolítica ideológica.

Os Estados Unidos: uma relação estratégica impossível de contornar

A relação com os Estados Unidos responde a uma lógica diferente. Washington não ocupa a mesma posição que Pequim na estrutura comercial brasileira, mas sua influência política, financeira, tecnológica, securitária e diplomática no hemisfério ocidental continua sendo considerável. Os dois países mantêm relações antigas nos campos do comércio, da defesa, do ensino superior, da ciência, da energia e dos investimentos. O Brasil permanece igualmente uma potência regional cuja cooperação com Washington pode produzir consequências importantes para a estabilidade do continente.

A história recente demonstra, contudo, que essa relação varia significativamente de acordo com as orientações políticas de Brasília. O governo Lula privilegiou uma política de autonomia diplomática, procurando manter o diálogo com Washington ao mesmo tempo em que fortalecia as relações com Pequim, Moscou, Nova Délhi e outras potências do Sul Global. Em contraste, o governo Bolsonaro adotou uma proximidade ideológica muito mais visível com a administração Trump. Essa diferença não significa que a política externa brasileira seja inteiramente determinada pela identidade ideológica do presidente: os interesses comerciais, os investimentos, a cooperação tecnológica e os equilíbrios regionais impõem restrições de longo prazo.

No horizonte de 2028, a questão será, portanto, saber se o próximo governo procurará aprofundar a parceria estratégica com os Estados Unidos ou acentuar a autonomia de Brasília. Uma orientação mais conservadora poderá favorecer uma relação política mais estreita com Washington, enquanto uma continuidade da linha atual provavelmente reforçaria a diversificação das parcerias. Em ambos os casos, uma ruptura com uma ou outra das duas grandes potências parece pouco compatível com os interesses estruturais do Brasil.

Os BRICS: do instrumento diplomático à afirmação do Sul Global

Os BRICS constituem provavelmente o principal espaço no qual o Brasil procura transformar seu peso econômico em influência política mundial. O grupo não é uma aliança militar e não funciona como um bloco homogêneo. Constitui, antes, um mecanismo de coordenação política, econômica e diplomática entre diversas grandes potências emergentes e países do Sul Global. Sua expansão aumentou consideravelmente sua diversidade e seu alcance. O grupo compreende agora onze membros, entre os quais Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia.

A presidência brasileira de 2025 ilustrou o uso que Brasília pretende fazer desse instrumento. Suas prioridades incluíam a cooperação do Sul Global, bem como a construção de parcerias nos campos social, econômico e ambiental, com ênfase particular na reforma da governança internacional, no financiamento climático, na saúde, no comércio, na inteligência artificial e na arquitetura multilateral de paz e segurança.

Essa orientação revela uma característica essencial da diplomacia brasileira: Brasília não procura necessariamente substituir a ordem internacional existente por uma ordem dominada pelos BRICS. Procura, antes, obter maior representação e influência para as potências emergentes nas instituições internacionais. O Brasil reivindica, assim, uma reforma do sistema multilateral, particularmente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, do sistema financeiro internacional e dos mecanismos de governança mundial.

O futuro dos BRICS dependerá, contudo, de sua capacidade de superar suas contradições internas. Os interesses da China, da Índia, da Rússia, das monarquias do Golfo e das potências latino-americanas não convergem automaticamente. As divergências relativas à guerra na Ucrânia, às relações com os Estados Unidos, às políticas energéticas, às moedas, às tecnologias e às questões de segurança tornam improvável o surgimento rápido de um bloco perfeitamente coerente. Para o Brasil, essa diversidade constitui, paradoxalmente, uma vantagem: permite-lhe apresentar-se como uma potência de mediação, e não como representante de um campo fechado.

A Índia e as potências emergentes: o terceiro espaço estratégico

A ascensão da Índia merece atenção especial em qualquer análise da política externa brasileira. Nova Délhi representa simultaneamente uma potência demográfica, econômica, tecnológica e diplomática cujos interesses convergem cada vez mais com os de Brasília. Os dois países compartilham, particularmente, posições sobre a reforma da governança mundial, a defesa do multilateralismo e a necessidade de ampliar a representação do Sul Global.

A Índia oferece igualmente ao Brasil uma possibilidade adicional de diversificação. Quanto mais se intensificam as tensões entre as grandes potências, maior é o interesse comum das potências intermediárias e emergentes em preservar espaços autônomos de cooperação. O triângulo Brasil–Índia–África do Sul, especialmente por meio do IBAS, assim como os diferentes mecanismos dos BRICS, pode contribuir para essa estratégia.

Essa evolução é importante para compreender a diplomacia brasileira do futuro. O mundo no qual o Brasil atua já não é simplesmente bipolar entre Washington e Pequim. Tornou-se progressivamente um sistema mais fragmentado, no qual Índia, potências do Golfo, União Europeia, Rússia, África do Sul, Indonésia e diversas potências regionais dispõem de margens de ação crescentes. A estratégia brasileira poderá precisamente consistir em explorar essa multipolaridade, em vez de escolher um campo.

A União Europeia: comércio, clima e poder normativo

A União Europeia constitui outro parceiro essencial do Brasil. A relação euro-brasileira reúne comércio, investimentos, cooperação científica, diplomacia climática, agricultura e governança ambiental. Ela apresenta, contudo, uma dificuldade particular: os interesses econômicos e as exigências regulatórias europeias nem sempre coincidem com as prioridades brasileiras.

A questão da parceria entre a União Europeia e o Mercosul ilustra perfeitamente essa tensão. Para o Brasil, o maior acesso ao mercado europeu representa uma importante oportunidade comercial e industrial. Para a Europa, o tema está ligado a preocupações relativas à agricultura, à concorrência, às normas sanitárias e ambientais, bem como ao desmatamento. A relação, portanto, não se resume a um simples acordo de livre-comércio: tornou-se um teste da capacidade dos dois blocos de conciliar comércio, soberania, clima e desenvolvimento.

O Brasil possui, nesse contexto, uma vantagem diplomática particular. Pode apresentar-se simultaneamente como potência agrícola, potência ambiental e potência industrial emergente. A dificuldade consiste em demonstrar que essas três dimensões podem ser conciliadas. A credibilidade internacional de Brasília na questão amazônica terá, portanto, impacto direto sobre suas relações com a Europa.

O Mercosul e a América Latina: a profundidade estratégica do Brasil

Nenhuma estratégia internacional brasileira pode ser duradoura sem levar em conta seu entorno regional. O Mercosul constitui, nesse sentido, muito mais do que uma organização comercial: representa um instrumento de projeção econômica e diplomática que permite ao Brasil fortalecer seu peso coletivo nas negociações internacionais.

As relações com a Argentina ocupam uma posição particular. As mudanças políticas em Buenos Aires podem alterar significativamente a dinâmica do bloco, sobretudo quando os governos brasileiro e argentino adotam orientações ideológicas diferentes. Essa divergência, contudo, não implica necessariamente uma ruptura. A interdependência econômica e geográfica entre os dois países continua suficientemente forte para impor mecanismos de cooperação.

De maneira mais ampla, o Brasil conserva uma responsabilidade particular pela estabilidade da América do Sul. Seu peso demográfico, econômico e territorial confere-lhe uma influência desproporcional em questões de segurança, energia, comércio, integração regional e mediação diplomática. Uma política externa brasileira excessivamente concentrada nas rivalidades entre as grandes potências poderia, assim, negligenciar seu principal espaço de profundidade estratégica: o continente sul-americano.

A Ucrânia, os conflitos internacionais e a diplomacia de mediação

A guerra na Ucrânia colocou a diplomacia brasileira diante de uma de suas contradições mais difíceis. Brasília condena o princípio da guerra e defende oficialmente a soberania e a integridade territorial dos Estados, mas, paralelamente, recusou-se a alinhar-se totalmente às posições ocidentais sobre as sanções e a ajuda militar à Ucrânia. Essa posição reflete a vontade brasileira de preservar uma capacidade de diálogo com todas as partes, em vez de inserir-se em uma lógica de confronto entre blocos.

Essa postura provocou críticas na Europa e nos Estados Unidos, com alguns parceiros ocidentais considerando que a neutralidade brasileira corre o risco de subestimar as responsabilidades da Rússia. O governo brasileiro considera, contudo, que seu interesse diplomático reside na promoção do diálogo e na busca de uma solução negociada. Essa estratégia corresponde a uma tradição mais antiga da diplomacia brasileira, baseada no multilateralismo, na negociação e na busca por autonomia decisória.

A questão será saber se essa diplomacia de mediação pode produzir resultados concretos. O prestígio internacional do Brasil dependerá menos de sua capacidade de proclamar sua independência do que de sua capacidade de transformar essa independência em influência efetiva.

O clima e a Amazônia: quando a política externa se torna política interna

A questão ambiental é agora indissociável da política externa brasileira. A Amazônia confere ao país uma responsabilidade mundial excepcional, mas também constitui elemento central de sua soberania e de seu modelo econômico. Os parceiros estrangeiros exigem que o Brasil fortaleça o combate ao desmatamento, enquanto Brasília insiste no direito ao desenvolvimento, na responsabilidade histórica diferenciada das grandes potências e na necessidade de um financiamento internacional confiável para a transição.

O Brasil possui, assim, uma capacidade única de transformar seu patrimônio ambiental em influência diplomática. Se conseguir reduzir de forma duradoura o desmatamento, desenvolver uma agricultura mais produtiva e menos emissora, valorizar a biodiversidade e atrair financiamento climático sem renunciar à sua soberania, poderá tornar-se um dos principais atores da diplomacia climática mundial. Ao contrário, uma degradação ambiental duradoura enfraqueceria sua credibilidade internacional e ampliaria as tensões com a União Europeia, os Estados Unidos e as organizações multilaterais.

A Amazônia, portanto, já não é apenas uma questão ecológica. Tornou-se um ativo estratégico, um instrumento de negociação comercial, uma questão de segurança, um tema de soberania e um dos principais determinantes do soft power brasileiro.

Rumo a uma diplomacia brasileira de geometria variável

No horizonte de 2028–2050, a questão fundamental será a autonomia estratégica. O Brasil dispõe de uma combinação rara de ativos: uma imensa superfície territorial, uma população considerável, uma agricultura competitiva, recursos energéticos e minerais, uma matriz elétrica relativamente descarbonizada, uma posição geográfica privilegiada e uma tradição diplomática reconhecida. Mas esses ativos só produzem poder internacional quando são transformados em capacidade de ação coerente.

A escolha entre uma proximidade maior com Washington e uma relação privilegiada com Pequim constitui, portanto, uma leitura excessivamente simplificada do futuro brasileiro. O cenário mais compatível com a tradição diplomática do país continua sendo o de uma geometria variável, na qual Brasília coopera com Washington em determinados domínios, com Pequim em outros, fortalece suas relações com Nova Délhi e as potências do Sul Global, mantém sua parceria com a Europa e procura consolidar sua liderança regional.

A verdadeira ambição do Brasil poderá, assim, ser menos a de tornar-se representante de um bloco do que a de tornar-se uma das potências capazes de dialogar com todos os blocos. Em um sistema internacional marcado pela competição sino-americana, pela fragmentação geopolítica, pela transição energética, pela transformação digital e pela ascensão do Sul Global, essa capacidade de mediação poderá tornar-se uma das principais vantagens estratégicas de Brasília.

A eleição de 2028 dará uma nova orientação a essa estratégia, mas não poderá apagar as realidades estruturais que a determinam. Qualquer que seja o governo que emerja das urnas, a China continuará sendo um importante parceiro econômico, os Estados Unidos permanecerão uma potência incontornável, a Europa conservará uma influência normativa e comercial significativa, os BRICS continuarão oferecendo um espaço de projeção internacional e a América do Sul permanecerá como a primeira profundidade estratégica do país. O verdadeiro desafio não será, portanto, escolher entre esses espaços, mas saber se o Brasil possui a coerência política, o poder econômico e a credibilidade diplomática necessários para articulá-los a serviço de uma visão nacional de longo prazo.

É precisamente aí que será definida a posição do Brasil no mundo: não na capacidade de escolher um campo, mas na capacidade de não ser escolhido pelos outros.

O BRASIL NO MUNDO

A dança entre a China, os Estados Unidos e as potências da nova ordem mundial

A política externa brasileira constitui um dos exercícios de equilíbrio mais complexos da geopolítica contemporânea. O Brasil não é nem uma potência ocidental clássica, nem uma potência asiática, nem um país periférico do sistema internacional. Pertence simultaneamente a vários espaços estratégicos: à América Latina, ao mundo ocidental por suas instituições e seus vínculos históricos, ao Sul Global por sua experiência de desenvolvimento, aos BRICS por sua ambição de transformação da governança mundial e ao sistema comercial mundial pela dimensão de suas relações com as principais economias do planeta. Essa posição explica a permanência de uma doutrina diplomática fundada na autonomia, na diversificação das parcerias e na busca de uma margem de manobra máxima entre os grandes polos de poder. A questão central para o Brasil, portanto, não é escolher entre Pequim e Washington, mas determinar até que ponto pode aprofundar suas relações com cada um deles sem comprometer sua soberania estratégica.

Essa lógica é particularmente importante na perspectiva de 2028. A próxima eleição presidencial não tratará apenas da política interna. Ela também poderá modificar o tom, as prioridades e os instrumentos da diplomacia brasileira, sem necessariamente alterar as restrições estruturais que se impõem a qualquer governo. A China continuará sendo um parceiro econômico essencial, os Estados Unidos permanecerão como uma potência incontornável nas Américas, a União Europeia conservará um peso comercial e normativo considerável, enquanto os BRICS oferecerão ao Brasil um espaço de projeção diplomática particularmente importante. Nesse contexto, a verdadeira questão será menos a de uma mudança de um campo para outro do que a do grau de autonomia estratégica que Brasília buscará preservar.

A China: o parceiro econômico incontornável

A China ocupa uma posição central na economia externa brasileira. Tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil e constitui, particularmente, um importante mercado para seus produtos agrícolas e matérias-primas. Os dados oficiais brasileiros confirmam essa posição dominante: em 2025, a China representou, sozinha, 32,7% das exportações brasileiras de produtos agroalimentares, à frente da União Europeia e dos Estados Unidos. Essa relação baseia-se em uma poderosa complementaridade econômica: o Brasil fornece, entre outros produtos, soja, carne, minério de ferro, petróleo e outras matérias-primas, enquanto a China exporta para o mercado brasileiro bens manufaturados, equipamentos, tecnologias e produtos de maior valor agregado.

Essa complementaridade constitui, ao mesmo tempo, uma força e uma vulnerabilidade. Ela garante ao Brasil acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo e sustenta fortemente seus superávits comerciais, mas também mantém uma estrutura de intercâmbio na qual os produtos primários ocupam um espaço considerável. A questão estratégica, portanto, já não é simplesmente saber se o Brasil deve comercializar com a China — essa relação tornou-se importante demais para ser facilmente colocada em causa —, mas como pode evitar que uma dependência comercial se transforme em dependência tecnológica ou industrial.

A presença chinesa no Brasil, aliás, ultrapassa o comércio. Os investimentos e as parcerias chinesas abrangem, entre outros setores, energia, infraestrutura, transportes, telecomunicações e diferentes segmentos industriais. Para Brasília, essa presença pode contribuir para acelerar o desenvolvimento das infraestruturas e a modernização produtiva. Ela, contudo, também suscita questões de soberania, segurança econômica e controle de setores estratégicos. A resposta brasileira, até agora, consistiu menos em fechar as portas à China do que em multiplicar os parceiros, a fim de evitar uma dependência exclusiva.

Essa abordagem também explica por que uma eventual alternância política em 2028 provavelmente não levaria a uma ruptura brusca com Pequim. Mesmo um governo que desejasse fortalecer suas relações com Washington teria interesse em preservar os vínculos comerciais com a China. A geografia econômica impõe aqui limites importantes à geopolítica ideológica.

Os Estados Unidos: uma relação estratégica impossível de contornar

A relação com os Estados Unidos obedece a uma lógica diferente. Washington não ocupa a mesma posição que Pequim na estrutura comercial brasileira, mas sua influência política, financeira, tecnológica, de segurança e diplomática no hemisfério ocidental continua sendo considerável. Os dois países mantêm relações antigas nos campos do comércio, da defesa, do ensino superior, da ciência, da energia e dos investimentos. O Brasil também continua sendo uma potência regional cuja cooperação com Washington pode produzir consequências importantes para a estabilidade do continente.

A história recente mostra, contudo, que essa relação varia significativamente de acordo com as orientações políticas de Brasília. O governo Lula privilegiou uma política de autonomia diplomática, buscando manter o diálogo com Washington ao mesmo tempo em que reforçava as relações com Pequim, Moscou, Nova Délhi e outras potências do Sul Global. Em contraste, o governo Bolsonaro havia adotado uma proximidade ideológica muito mais visível com a administração Trump. Essa diferença não significa que a política externa brasileira seja inteiramente determinada pela identidade ideológica do presidente: os interesses comerciais, os investimentos, a cooperação tecnológica e os equilíbrios regionais impõem restrições de longo prazo.

Na perspectiva de 2028, a questão será, portanto, saber se o próximo governo buscará aprofundar a parceria estratégica com os Estados Unidos ou acentuar a autonomia de Brasília. Uma orientação mais conservadora poderá favorecer uma relação política mais estreita com Washington, enquanto a continuidade da linha atual provavelmente reforçaria a diversificação das parcerias. Em ambos os casos, uma ruptura com uma ou outra das duas grandes potências parece pouco compatível com os interesses estruturais do Brasil.

Os BRICS: do instrumento diplomático à afirmação do Sul Global

Os BRICS constituem provavelmente o principal espaço no qual o Brasil procura transformar seu peso econômico em influência política mundial. O grupo não é uma aliança militar e não funciona como um bloco homogêneo. Constitui, antes, um mecanismo de coordenação política, econômica e diplomática entre várias grandes potências emergentes e países do Sul Global. Sua expansão aumentou consideravelmente sua diversidade e seu alcance. O grupo compreende agora onze membros, entre eles Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia.

A presidência brasileira de 2025 ilustrou o uso que Brasília pretende fazer desse instrumento. Ela tinha como prioridades a cooperação do Sul Global e a construção de parcerias nos campos social, econômico e ambiental, com ênfase particular na reforma da governança internacional, no financiamento climático, na saúde, no comércio, na inteligência artificial e na arquitetura multilateral de paz e segurança.

Essa orientação revela uma característica essencial da diplomacia brasileira: Brasília não busca necessariamente substituir a ordem internacional existente por uma ordem dominada pelos BRICS. Procura, antes, obter maior representação e influência para as potências emergentes dentro das instituições internacionais. O Brasil defende, assim, uma reforma do sistema multilateral, particularmente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, do sistema financeiro internacional e dos mecanismos de governança mundial.

O futuro dos BRICS dependerá, contudo, de sua capacidade de superar suas contradições internas. Os interesses da China, da Índia, da Rússia, das monarquias do Golfo e das potências latino-americanas não convergem automaticamente. As divergências sobre a guerra na Ucrânia, as relações com os Estados Unidos, as políticas energéticas, as moedas, as tecnologias e as questões de segurança tornam improvável o surgimento rápido de um bloco perfeitamente coerente. Para o Brasil, essa diversidade constitui, paradoxalmente, uma vantagem: permite-lhe apresentar-se como uma potência de mediação, e não como representante de um campo fechado.

A Índia e as potências emergentes: o terceiro espaço estratégico

A ascensão da Índia merece atenção particular em qualquer análise da política externa brasileira. Nova Délhi representa, simultaneamente, uma potência demográfica, econômica, tecnológica e diplomática cujos interesses se cruzam cada vez mais com os de Brasília. Os dois países compartilham, particularmente, posições sobre a reforma da governança mundial, a defesa do multilateralismo e a necessidade de ampliar a representação do Sul Global.

A Índia também oferece ao Brasil uma possibilidade adicional de diversificação. Quanto mais se intensificam as tensões entre as grandes potências, maior é o interesse comum das potências intermediárias e emergentes em preservar espaços autônomos de cooperação. O triângulo Brasil–Índia–África do Sul, especialmente por meio do IBAS, assim como os diferentes mecanismos dos BRICS, pode contribuir para essa estratégia.

Essa evolução é importante para compreender a diplomacia brasileira do futuro. O mundo no qual o Brasil está inserido já não é simplesmente bipolar entre Washington e Pequim. Tornou-se progressivamente um sistema mais fragmentado, no qual Índia, potências do Golfo, União Europeia, Rússia, África do Sul, Indonésia e várias potências regionais dispõem de margens de ação crescentes. A estratégia brasileira poderia precisamente consistir em explorar essa multipolaridade, em vez de escolher um campo.

A União Europeia: comércio, clima e poder normativo

A União Europeia constitui outro parceiro essencial do Brasil. A relação euro-brasileira associa comércio, investimentos, cooperação científica, diplomacia climática, agricultura e governança ambiental. Ela apresenta, contudo, uma dificuldade particular: os interesses econômicos e as exigências regulatórias europeias nem sempre coincidem com as prioridades brasileiras.

A questão da parceria entre a União Europeia e o Mercosul ilustra perfeitamente essa tensão. Para o Brasil, o maior acesso ao mercado europeu representa uma importante oportunidade comercial e industrial. Para a Europa, o tema está ligado a preocupações relativas à agricultura, à concorrência, às normas sanitárias e ambientais, bem como ao desmatamento. A relação, portanto, não se resume a um simples acordo de livre comércio: tornou-se um teste da capacidade dos dois blocos de conciliar comércio, soberania, clima e desenvolvimento.

O Brasil possui aqui uma vantagem diplomática particular. Pode apresentar-se simultaneamente como potência agrícola, potência ambiental e potência industrial emergente. A dificuldade consiste em demonstrar que essas três dimensões podem ser conciliadas. A credibilidade internacional de Brasília na questão amazônica terá, portanto, impacto direto em suas relações com a Europa.

O Mercosul e a América Latina: a profundidade estratégica do Brasil

Nenhuma estratégia internacional brasileira pode ser duradoura sem levar em conta seu entorno regional. O Mercosul representa, nesse sentido, muito mais do que uma organização comercial: constitui um instrumento de projeção econômica e diplomática que permite ao Brasil reforçar seu peso coletivo nas negociações internacionais.

As relações com a Argentina ocupam um lugar particular. As mudanças políticas em Buenos Aires podem modificar significativamente a dinâmica do bloco, especialmente quando os governos brasileiro e argentino adotam orientações ideológicas diferentes. Essa divergência, contudo, não significa necessariamente uma ruptura. A interdependência econômica e geográfica entre os dois países continua suficientemente forte para impor mecanismos de cooperação.

Mais amplamente, o Brasil mantém uma responsabilidade particular pela estabilidade da América do Sul. Seu peso demográfico, econômico e territorial lhe confere uma influência desproporcional nas questões de segurança, energia, comércio, integração regional e mediação diplomática. Uma política externa brasileira excessivamente centrada nas rivalidades entre as grandes potências poderia, assim, negligenciar seu principal espaço de profundidade estratégica: o continente sul-americano.

A Ucrânia, os conflitos internacionais e a diplomacia de mediação

A guerra na Ucrânia colocou a diplomacia brasileira diante de uma de suas contradições mais difíceis. Brasília condena o princípio da guerra e defende oficialmente a soberania e a integridade territorial dos Estados, mas, paralelamente, recusou-se a alinhar-se totalmente às posições ocidentais relativas às sanções e à ajuda militar à Ucrânia. Essa posição reflete a vontade brasileira de preservar uma capacidade de diálogo com todas as partes, em vez de inserir-se em uma lógica de confronto entre blocos.

Essa postura suscitou críticas na Europa e nos Estados Unidos, com alguns parceiros ocidentais considerando que a neutralidade brasileira corre o risco de subestimar as responsabilidades da Rússia. O governo brasileiro considera, contudo, que seu interesse diplomático reside na promoção do diálogo e na busca de uma solução negociada. Essa estratégia corresponde a uma tradição mais antiga da diplomacia brasileira, baseada no multilateralismo, na negociação e na busca de autonomia decisória.

A questão será saber se essa diplomacia de mediação poderá produzir resultados concretos. O prestígio internacional do Brasil dependerá menos de sua capacidade de proclamar sua independência do que de sua capacidade de transformar essa independência em influência real.

O clima e a Amazônia: quando a política externa se torna política interna

A questão ambiental é agora indissociável da política externa brasileira. A Amazônia confere ao país uma responsabilidade mundial excepcional, mas constitui também um elemento central de sua soberania e de seu modelo econômico. Os parceiros estrangeiros pedem ao Brasil que fortaleça o combate ao desmatamento, enquanto Brasília insiste no direito ao desenvolvimento, na responsabilidade histórica diferenciada das grandes potências e na necessidade de um financiamento internacional confiável para a transição.

O Brasil possui, assim, uma capacidade única de transformar seu patrimônio ambiental em influência diplomática. Se conseguir reduzir de forma duradoura o desmatamento, desenvolver uma agricultura mais produtiva e menos emissora, valorizar a biodiversidade e atrair financiamento climático sem renunciar à sua soberania, poderá tornar-se um dos principais atores da diplomacia climática mundial. Ao contrário, uma degradação ambiental persistente enfraqueceria sua credibilidade internacional e intensificaria as tensões com a União Europeia, os Estados Unidos e as organizações multilaterais.

A Amazônia, portanto, já não é apenas uma questão ecológica. Tornou-se um ativo estratégico, um instrumento de negociação comercial, uma questão de segurança, um tema de soberania e um dos principais determinantes do soft power brasileiro.

Rumo a uma diplomacia brasileira de geometria variável

Na perspectiva de 2028–2050, a questão fundamental será a da autonomia estratégica. O Brasil dispõe de uma combinação rara de vantagens: uma superfície imensa, uma população considerável, uma agricultura competitiva, recursos energéticos e minerais, uma matriz elétrica relativamente descarbonizada, uma posição geográfica privilegiada e uma tradição diplomática reconhecida. Mas essas vantagens só produzem poder internacional quando são transformadas em capacidade de ação coerente.

A escolha entre uma proximidade maior com Washington e uma relação privilegiada com Pequim constitui, portanto, uma leitura excessivamente simplificada do futuro brasileiro. O cenário mais compatível com a tradição diplomática do país continua sendo o de uma geometria variável, na qual Brasília coopera com Washington em determinados domínios, com Pequim em outros, fortalece suas relações com Nova Délhi e as potências do Sul Global, mantém sua parceria com a Europa e busca consolidar sua liderança regional.

A verdadeira ambição do Brasil poderia, assim, ser menos a de tornar-se representante de um bloco e mais a de tornar-se uma das potências capazes de dialogar com todos os blocos. Em um sistema internacional marcado pela competição sino-americana, pela fragmentação geopolítica, pela transição energética, pela transformação digital e pela ascensão do Sul Global, essa capacidade de mediação poderia tornar-se uma das principais vantagens estratégicas de Brasília.

A eleição de 2028 dará uma nova orientação a essa estratégia, mas não poderá apagar as realidades estruturais que a determinam. Qualquer que seja o governo que emerja das urnas, a China continuará sendo um importante parceiro econômico, os Estados Unidos permanecerão como uma potência incontornável, a Europa conservará uma influência normativa e comercial significativa, os BRICS continuarão oferecendo um espaço de projeção internacional e a América do Sul permanecerá como a primeira profundidade estratégica do país. O verdadeiro desafio, portanto, não será escolher entre esses espaços, mas saber se o Brasil possui a coerência política, o poder econômico e a credibilidade diplomática necessários para articulá-los a serviço de uma visão nacional de longo prazo.

É precisamente aí que se definirá o lugar do Brasil no mundo: não na capacidade de escolher um campo, mas na capacidade de não ser escolhido pelos outros.

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 2026

A escolha de um modelo de poder

A eleição presidencial brasileira de 2026 representa muito mais do que uma alternância política ordinária. Ela ocorre em um país profundamente polarizado, confrontado simultaneamente com desafios econômicos, sociais, ambientais, institucionais e geopolíticos, justamente quando seu peso internacional nunca foi tão significativo. O primeiro turno está previsto para 4 de outubro de 2026 e, caso nenhum candidato obtenha a maioria absoluta dos votos válidos, um segundo turno será realizado em 25 de outubro. Os eleitores também escolherão governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais e deputados do Distrito Federal, conferindo ao pleito uma dimensão institucional que ultrapassa amplamente a própria disputa presidencial.

A disputa presidencial opõe principalmente, neste momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, mas a verdadeira dinâmica eleitoral é mais complexa do que um simples duelo entre a esquerda e o bolsonarismo. Lula busca prolongar seu retorno ao poder e defender um modelo baseado na redistribuição social, na presença do Estado na economia, na proteção da Amazônia e em uma política externa autônoma. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta transformar o legado político de seu pai em uma nova candidatura capaz de reunir o eleitorado conservador, liberal e soberanista. Ao redor deles gravitam várias figuras do centro-direita, entre elas Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que podem não chegar ao segundo turno, mas cujos eleitores poderão tornar-se decisivos na fase final da campanha. O verdadeiro desafio, portanto, não será apenas saber quem chegará em primeiro lugar no primeiro turno, mas quem será capaz de construir, entre os dois turnos, a mais ampla coalizão eleitoral.

Lula e a continuidade de uma potência autônoma

Luiz Inácio Lula da Silva chega a esta campanha com uma importante vantagem política: continua sendo a principal personalidade da esquerda brasileira e mantém uma base eleitoral particularmente sólida no Nordeste e entre as camadas populares. Seu projeto está baseado na continuidade das políticas de redução das desigualdades, no fortalecimento dos programas sociais, na valorização do salário mínimo, no investimento público e na reconstrução do papel do Brasil como potência diplomática autônoma. Seu governo também busca apresentar a proteção da Amazônia e a transição energética como instrumentos de desenvolvimento econômico, e não como restrições impostas de fora.

Mas a candidatura de Lula não se apoia apenas em seu balanço de governo. Ela também enfrenta uma questão geracional e política: como transformar a popularidade pessoal de um líder histórico em um projeto duradouro para o período pós-Lula? À medida que se aproxima daquela que poderá constituir sua última grande batalha eleitoral nacional, seu campo político precisa convencer além de seu eleitorado tradicional, especialmente entre as classes médias, os jovens urbanos e os eleitores preocupados com as finanças públicas, a segurança e o poder de compra. A questão central para Lula será, portanto, saber se sua experiência e seu histórico de governo poderão compensar o desgaste do poder e as críticas relacionadas à economia, aos gastos públicos e à polarização política.

Flávio Bolsonaro e a reconstrução da direita

Flávio Bolsonaro representa outra dimensão desta eleição: a tentativa de transformar o bolsonarismo histórico em uma força política capaz de sobreviver ao seu fundador. Filho de Jair Bolsonaro e senador pelo Rio de Janeiro, ele se beneficia de uma marca política já conhecida e de um eleitorado conservador profundamente estruturado. Mas o legado familiar constitui simultaneamente uma força e uma fraqueza. Ele lhe proporciona uma base eleitoral imediatamente identificável, ao mesmo tempo que o obriga a convencer os eleitores que desejam uma direita menos conflituosa e mais orientada para a gestão econômica e a negociação institucional.

Seu discurso combina várias dimensões: disciplina fiscal, redução do peso do Estado, liberalização econômica, conservadorismo social, defesa da soberania nacional e aproximação estratégica com os Estados Unidos. Sua campanha também trabalha em uma proposta de uma nova regra fiscal vinculada ao nível da dívida pública, sinal de que a questão das finanças públicas poderá tornar-se um dos principais campos de confronto com o governo Lula. A Reuters informou em 11 de agosto que essa proposta ainda estava em preparação e que a equipe de campanha avaliava um ajuste fiscal significativo.

Entretanto, Flávio Bolsonaro terá de resolver uma equação difícil: conservar o eleitorado fiel ao nome Bolsonaro e, ao mesmo tempo, ampliar sua coalizão em direção ao centro-direita. Sua capacidade de atrair os eleitores de candidatos que eventualmente sejam eliminados no primeiro turno será determinante. A questão, portanto, não será simplesmente saber quantos votos o bolsonarismo possui, mas quantos votos adicionais poderá conquistar sem perder sua base.

O centro como possível árbitro do pleito

O centro brasileiro continua frequentemente subestimado nas análises eleitorais, embora possa tornar-se decisivo em um sistema no qual nenhum candidato dispõe naturalmente de uma maioria nacional. Governadores, partidos de centro e centro-direita, lideranças regionais e redes políticas locais constituem um conjunto de forças capazes de negociar seu apoio em função dos programas, dos interesses territoriais e de sua capacidade de participar da futura governabilidade.

Essa realidade recorda uma característica fundamental do sistema brasileiro já analisada na primeira parte: o presidente raramente governa sozinho. Mesmo depois de vencer a eleição presidencial, precisa negociar com o Congresso, os governadores, os partidos regionais e os blocos parlamentares. O pleito de 2026 será, portanto, duplo: uma competição pelo Palácio do Planalto e uma batalha paralela para construir as condições parlamentares necessárias à governabilidade.

Os eleitores e os temas que decidirão o pleito

A economia deverá constituir um dos principais critérios de escolha. Inflação, poder de compra, emprego, dívida pública, tributação, investimento e crescimento determinarão grande parte da percepção sobre o governo em exercício. A segurança será outro tema central, particularmente nas regiões confrontadas com a violência das organizações criminosas e com problemas de segurança pública. A Amazônia, a agricultura, os direitos das populações indígenas e a transição energética permitirão medir as divergências entre os diferentes modelos de desenvolvimento.

As instituições também ocuparão um lugar central. O papel do Supremo Tribunal Federal, a independência da Justiça Eleitoral, a relação entre o poder civil e as Forças Armadas, assim como a capacidade dos candidatos de aceitar as regras democráticas, serão examinados com particular atenção. Depois das tensões institucionais dos últimos anos, a questão já não será simplesmente saber quem governará, mas se o próximo governo aceitará os limites constitucionais de seu próprio poder.

A juventude e o novo eleitor digital

Uma transformação mais profunda poderá, entretanto, vir da geração digital. Uma parcela crescente da juventude brasileira já não descobre a política principalmente por meio de jornais, televisão ou comícios tradicionais, mas através de fluxos personalizados de vídeos curtos, conversas privadas e comunidades digitais. Essa evolução transforma a maneira como as campanhas constroem suas mensagens, mobilizam seus apoiadores e respondem às crises.

A juventude, contudo, não constitui um bloco eleitoral homogêneo. Os jovens eleitores também são atravessados pelas mesmas fraturas que caracterizam a sociedade brasileira: classe social, território, religião, nível de escolaridade, identidade política e experiência econômica. Alguns são sensíveis às questões climáticas e sociais; outros, à segurança, ao empreendedorismo, aos valores conservadores ou à desconfiança em relação às instituições. Sua importância, portanto, não reside apenas em seu número, mas também em sua capacidade de se tornar vetor de novas formas de mobilização política.

O ambiente digital também transforma a velocidade da campanha. Uma declaração feita em uma cidade pode tornar-se nacional em poucos minutos; uma imagem retirada de seu contexto pode provocar uma crise; um vídeo curto pode alcançar mais eleitores do que um longo discurso político. A campanha de 2026 será, assim, tanto uma batalha pelos votos quanto uma batalha pela atenção.

WhatsApp, TikTok, YouTube e a batalha das narrativas

O sistema midiático brasileiro tornou-se profundamente híbrido. Os meios de comunicação tradicionais continuam poderosos, mas coexistem com WhatsApp, YouTube, Instagram, TikTok, X e outras plataformas que permitem a candidatos, influenciadores, militantes e cidadãos produzir diretamente narrativas políticas. O poder de definir a agenda, portanto, já não pertence exclusivamente às grandes redações.

Essa transformação possui uma dimensão democrática positiva: permite que grupos anteriormente marginalizados participem diretamente do debate público. Mas também cria uma vulnerabilidade importante. Os algoritmos frequentemente recompensam conteúdos emocionais, conflituosos ou espetaculares, o que pode favorecer a polarização. Rumores podem circular mais rapidamente do que sua verificação, enquanto comunidades digitais podem aprisionar eleitores em ambientes informacionais nos quais opiniões divergentes se tornam quase invisíveis.

A campanha de 2026 deve, portanto, ser compreendida como uma batalha de narrativas. A questão não será apenas saber qual candidato possui o melhor programa, mas quem conseguirá impor uma determinada interpretação da realidade: crise ou recuperação econômica, soberania ou cooperação internacional, segurança ou repressão, proteção da Amazônia ou obstáculo ao desenvolvimento, defesa da democracia ou defesa da ordem.

A inteligência artificial entra na arena eleitoral

Pela primeira vez, a inteligência artificial ocupa um espaço suficientemente importante para tornar-se uma questão eleitoral por si mesma. A produção automatizada de textos, imagens, vozes e vídeos abre possibilidades inéditas de comunicação política, mas também cria riscos consideráveis para a integridade do pleito.

O Tribunal Superior Eleitoral reforçou especificamente suas regras para a eleição de 2026. As disposições adotadas regulamentam o uso da inteligência artificial na propaganda eleitoral e procuram, particularmente, impedir a utilização de deepfakes destinados a favorecer ou prejudicar uma candidatura. A propaganda eleitoral está autorizada a partir de 16 de agosto de 2026.

A questão, porém, vai além da simples proibição técnica. O verdadeiro desafio será o da confiança. Em um ambiente no qual um vídeo realista pode ser fabricado ou manipulado, o eleitor terá progressivamente de aprender a distinguir uma informação autêntica de um conteúdo artificialmente construído. A defesa da eleição torna-se, assim, também uma questão de cultura digital e educação cívica.

O TSE e a defesa da integridade eleitoral

A Justiça Eleitoral constitui um dos pilares mais importantes do sistema brasileiro. O Tribunal Superior Eleitoral é a autoridade máxima da Justiça Eleitoral nacional e coordena, juntamente com os tribunais regionais, a organização do processo eleitoral.

Seu papel será particularmente sensível em 2026. Deverá simultaneamente garantir a regularidade do pleito, supervisionar as regras de propaganda, combater a desinformação e preservar a confiança no sistema de votação eletrônica. O TSE já desenvolveu mecanismos específicos de combate à desinformação e aos deepfakes, bem como estruturas dedicadas à inteligência artificial e aos direitos digitais.

Essa função tornou-se estratégica porque a legitimidade de uma eleição contemporânea depende tanto do resultado material quanto da aceitação coletiva desse resultado. Uma instituição eleitoral eficaz deve, portanto, garantir duas coisas simultaneamente: que os votos sejam corretamente contabilizados e que os cidadãos tenham confiança suficiente no processo para aceitar o veredito das urnas.

As Forças Armadas e a aceitação do resultado

A relação entre as Forças Armadas e a democracia continua sendo uma questão sensível, mas deve ser abordada com prudência. As eleições de 2026 não devem ser analisadas apenas pelo prisma de uma eventual intervenção militar. O verdadeiro indicador democrático será, antes, a capacidade de todas as instituições, incluindo as Forças Armadas, de respeitar a Constituição, a autoridade civil e o resultado oficialmente proclamado.

A experiência recente demonstrou quão perigosa pode tornar-se a contestação do resultado eleitoral quando a polarização política se transforma em uma crise de legitimidade. A consolidação democrática do Brasil dependerá, portanto, menos da neutralidade absoluta de cada ator político do que da existência de um consenso mínimo em torno de uma regra fundamental: uma eleição só pode funcionar se a derrota for reconhecida como uma possibilidade legítima.

O dinheiro, as redes e as infraestruturas invisíveis da campanha

A competição eleitoral não ocorre apenas diante das câmeras. Ela também depende de recursos financeiros, organizações territoriais, redes de militantes, grupos de pressão e infraestruturas digitais capazes de transformar uma mensagem em mobilização eleitoral. A regulamentação brasileira do financiamento político procura enquadrar esses fluxos, mas a crescente sofisticação das campanhas digitais torna a fiscalização mais complexa.

O poder econômico identificado na primeira parte recupera aqui toda a sua importância. A influência dos grandes setores econômicos não significa necessariamente que eles controlem diretamente as eleições; ela reside, antes, em sua capacidade de participar do debate público, financiar legalmente determinadas atividades políticas, influenciar as políticas econômicas e exercer peso sobre as coalizões. A verdadeira questão estratégica é, portanto, a transparência: até que ponto os interesses econômicos podem influenciar a democracia sem comprometer a igualdade política entre os cidadãos?

As potências estrangeiras e a soberania eleitoral

A dimensão internacional da eleição será particularmente forte. Os Estados Unidos, a China, a União Europeia e outras grandes potências terão interesses na orientação futura da política brasileira, seja no comércio, na Amazônia, nos minerais estratégicos, nos BRICS, na energia ou na governança mundial.

Mas é necessário distinguir cuidadosamente influência internacional e ingerência eleitoral. As grandes potências podem procurar defender seus interesses por meio da diplomacia, das relações comerciais, de declarações públicas, de investimentos ou de parcerias estratégicas sem necessariamente intervir diretamente no processo eleitoral. As acusações de ingerência devem, portanto, ser examinadas com base em fatos verificáveis, e não em hipóteses.

Essa questão, contudo, tornou-se politicamente central. O próprio Lula colocou a soberania nacional no centro de sua campanha, enquanto Flávio Bolsonaro defende uma relação estratégica mais estreita com os Estados Unidos. A dimensão internacional, portanto, não será externa à eleição: fará parte do próprio debate eleitoral. As primeiras semanas de agosto de 2026 já demonstram que a questão da influência estrangeira se tornou um tema de campanha.

O que as pesquisas realmente dizem

Em meados de agosto de 2026, Lula mantém vantagem nos principais cenários medidos, mas a diferença em relação a Flávio Bolsonaro não é suficientemente ampla para permitir que a eleição seja considerada definida. Na pesquisa CNT/MDA publicada em 11 de agosto, Lula registra 42,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro; Ronaldo Caiado obtém 4,0% e Romeu Zema, 3,3%. Em uma hipótese de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, Lula registra 48,0%, contra 39,1%. A pesquisa entrevistou 2.002 pessoas entre 5 e 9 de agosto, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais.

Esses números devem ser interpretados como uma fotografia, e não como uma profecia. O primeiro turno pode modificar profundamente a configuração do segundo, especialmente por meio da transferência dos votos do centro-direita. Uma campanha eleitoral também pode ser transformada por uma crise econômica, um escândalo, um acontecimento internacional, uma catástrofe ambiental ou uma mudança repentina da opinião pública. A principal conclusão que se pode tirar das pesquisas atuais, portanto, não é que Lula tenha vitória assegurada, mas que o pleito permanece aberto, polarizado e suscetível a um estreitamento da disputa.

Três batalhas em uma única eleição

A eleição de 2026 deve, finalmente, ser compreendida como três eleições simultâneas. A primeira é a disputa presidencial entre Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos. A segunda é a batalha parlamentar, que determinará a capacidade do futuro presidente de governar. A terceira é a batalha informacional, que determinará como os cidadãos perceberão os candidatos, seus programas e a legitimidade do processo eleitoral.

Essas três dimensões são indissociáveis. Um presidente pode vencer a eleição, mas perder a capacidade de governar no Congresso. Uma campanha pode vencer a batalha midiática, mas perder a confiança dos eleitores. Uma vitória eleitoral pode ser juridicamente incontestável e, ainda assim, tornar-se politicamente frágil se uma parcela significativa do país se recusar a reconhecer sua legitimidade.

Uma eleição que ultrapassará as fronteiras do Brasil

O pleito de 2026 terá, portanto, uma repercussão que ultrapassará amplamente as fronteiras brasileiras. A escolha dos eleitores influenciará a política climática mundial, as relações entre China e Estados Unidos, o futuro dos BRICS, a evolução do Mercosul, a governança da Amazônia, os mercados agrícolas e minerais, bem como o equilíbrio político da América do Sul.

Mas seu desafio mais profundo talvez seja interno: o Brasil conseguirá transformar sua polarização em uma competição democrática duradoura, em vez de um conflito permanente? A resposta dependerá tanto do candidato eleito quanto de sua capacidade de respeitar as instituições, negociar com seus adversários e aceitar os limites constitucionais do poder.

A eleição de 2026, portanto, não decidirá apenas quem governará o Brasil. Ela contribuirá para determinar que tipo de potência o país se tornará durante os anos 2030: uma potência democrática capaz de conciliar crescimento e inclusão; uma potência mais liberal e conservadora, voltada para a soberania econômica e as alianças estratégicas; ou uma potência paralisada pela polarização e pelo confronto institucional. Nessa perspectiva, a verdadeira pergunta colocada aos eleitores brasileiros não é apenas «Quem deve governar?», mas «Que Brasil queremos ver emergir no mundo?».

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 2026

A escolha de um modelo de poder

A eleição presidencial brasileira de 2026 representa muito mais do que uma alternância política ordinária. Ela ocorre em um país profundamente polarizado, confrontado simultaneamente com desafios econômicos, sociais, ambientais, institucionais e geopolíticos, justamente quando seu peso internacional nunca foi tão significativo. O primeiro turno está previsto para 4 de outubro de 2026 e, caso nenhum candidato obtenha a maioria absoluta dos votos válidos, um segundo turno será realizado em 25 de outubro. Os eleitores também escolherão governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais e deputados do Distrito Federal, conferindo ao pleito uma dimensão institucional que ultrapassa amplamente a própria disputa presidencial.

A disputa presidencial opõe principalmente, neste momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, mas a verdadeira dinâmica eleitoral é mais complexa do que um simples duelo entre a esquerda e o bolsonarismo. Lula busca prolongar seu retorno ao poder e defender um modelo baseado na redistribuição social, na presença do Estado na economia, na proteção da Amazônia e em uma política externa autônoma. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta transformar o legado político de seu pai em uma nova candidatura capaz de reunir o eleitorado conservador, liberal e soberanista. Ao redor deles gravitam várias figuras do centro-direita, entre elas Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que podem não chegar ao segundo turno, mas cujos eleitores poderão tornar-se decisivos na fase final da campanha. O verdadeiro desafio, portanto, não será apenas saber quem chegará em primeiro lugar no primeiro turno, mas quem será capaz de construir, entre os dois turnos, a mais ampla coalizão eleitoral.

Lula e a continuidade de uma potência autônoma

Luiz Inácio Lula da Silva chega a esta campanha com uma importante vantagem política: continua sendo a principal personalidade da esquerda brasileira e mantém uma base eleitoral particularmente sólida no Nordeste e entre as camadas populares. Seu projeto está baseado na continuidade das políticas de redução das desigualdades, no fortalecimento dos programas sociais, na valorização do salário mínimo, no investimento público e na reconstrução do papel do Brasil como potência diplomática autônoma. Seu governo também busca apresentar a proteção da Amazônia e a transição energética como instrumentos de desenvolvimento econômico, e não como restrições impostas de fora.

Mas a candidatura de Lula não se apoia apenas em seu balanço de governo. Ela também enfrenta uma questão geracional e política: como transformar a popularidade pessoal de um líder histórico em um projeto duradouro para o período pós-Lula? À medida que se aproxima daquela que poderá constituir sua última grande batalha eleitoral nacional, seu campo político precisa convencer além de seu eleitorado tradicional, especialmente entre as classes médias, os jovens urbanos e os eleitores preocupados com as finanças públicas, a segurança e o poder de compra. A questão central para Lula será, portanto, saber se sua experiência e seu histórico de governo poderão compensar o desgaste do poder e as críticas relacionadas à economia, aos gastos públicos e à polarização política.

Flávio Bolsonaro e a reconstrução da direita

Flávio Bolsonaro representa outra dimensão desta eleição: a tentativa de transformar o bolsonarismo histórico em uma força política capaz de sobreviver ao seu fundador. Filho de Jair Bolsonaro e senador pelo Rio de Janeiro, ele se beneficia de uma marca política já conhecida e de um eleitorado conservador profundamente estruturado. Mas o legado familiar constitui simultaneamente uma força e uma fraqueza. Ele lhe proporciona uma base eleitoral imediatamente identificável, ao mesmo tempo que o obriga a convencer os eleitores que desejam uma direita menos conflituosa e mais orientada para a gestão econômica e a negociação institucional.

Seu discurso combina várias dimensões: disciplina fiscal, redução do peso do Estado, liberalização econômica, conservadorismo social, defesa da soberania nacional e aproximação estratégica com os Estados Unidos. Sua campanha também trabalha em uma proposta de uma nova regra fiscal vinculada ao nível da dívida pública, sinal de que a questão das finanças públicas poderá tornar-se um dos principais campos de confronto com o governo Lula. A Reuters informou em 11 de agosto que essa proposta ainda estava em preparação e que a equipe de campanha avaliava um ajuste fiscal significativo.

Entretanto, Flávio Bolsonaro terá de resolver uma equação difícil: conservar o eleitorado fiel ao nome Bolsonaro e, ao mesmo tempo, ampliar sua coalizão em direção ao centro-direita. Sua capacidade de atrair os eleitores de candidatos que eventualmente sejam eliminados no primeiro turno será determinante. A questão, portanto, não será simplesmente saber quantos votos o bolsonarismo possui, mas quantos votos adicionais poderá conquistar sem perder sua base.

O centro como possível árbitro do pleito

O centro brasileiro continua frequentemente subestimado nas análises eleitorais, embora possa tornar-se decisivo em um sistema no qual nenhum candidato dispõe naturalmente de uma maioria nacional. Governadores, partidos de centro e centro-direita, lideranças regionais e redes políticas locais constituem um conjunto de forças capazes de negociar seu apoio em função dos programas, dos interesses territoriais e de sua capacidade de participar da futura governabilidade.

Essa realidade recorda uma característica fundamental do sistema brasileiro já analisada na primeira parte: o presidente raramente governa sozinho. Mesmo depois de vencer a eleição presidencial, precisa negociar com o Congresso, os governadores, os partidos regionais e os blocos parlamentares. O pleito de 2026 será, portanto, duplo: uma competição pelo Palácio do Planalto e uma batalha paralela para construir as condições parlamentares necessárias à governabilidade.

Os eleitores e os temas que decidirão o pleito

A economia deverá constituir um dos principais critérios de escolha. Inflação, poder de compra, emprego, dívida pública, tributação, investimento e crescimento determinarão grande parte da percepção sobre o governo em exercício. A segurança será outro tema central, particularmente nas regiões confrontadas com a violência das organizações criminosas e com problemas de segurança pública. A Amazônia, a agricultura, os direitos das populações indígenas e a transição energética permitirão medir as divergências entre os diferentes modelos de desenvolvimento.

As instituições também ocuparão um lugar central. O papel do Supremo Tribunal Federal, a independência da Justiça Eleitoral, a relação entre o poder civil e as Forças Armadas, assim como a capacidade dos candidatos de aceitar as regras democráticas, serão examinados com particular atenção. Depois das tensões institucionais dos últimos anos, a questão já não será simplesmente saber quem governará, mas se o próximo governo aceitará os limites constitucionais de seu próprio poder.

A juventude e o novo eleitor digital

Uma transformação mais profunda poderá, entretanto, vir da geração digital. Uma parcela crescente da juventude brasileira já não descobre a política principalmente por meio de jornais, televisão ou comícios tradicionais, mas através de fluxos personalizados de vídeos curtos, conversas privadas e comunidades digitais. Essa evolução transforma a maneira como as campanhas constroem suas mensagens, mobilizam seus apoiadores e respondem às crises.

A juventude, contudo, não constitui um bloco eleitoral homogêneo. Os jovens eleitores também são atravessados pelas mesmas fraturas que caracterizam a sociedade brasileira: classe social, território, religião, nível de escolaridade, identidade política e experiência econômica. Alguns são sensíveis às questões climáticas e sociais; outros, à segurança, ao empreendedorismo, aos valores conservadores ou à desconfiança em relação às instituições. Sua importância, portanto, não reside apenas em seu número, mas também em sua capacidade de se tornar vetor de novas formas de mobilização política.

O ambiente digital também transforma a velocidade da campanha. Uma declaração feita em uma cidade pode tornar-se nacional em poucos minutos; uma imagem retirada de seu contexto pode provocar uma crise; um vídeo curto pode alcançar mais eleitores do que um longo discurso político. A campanha de 2026 será, assim, tanto uma batalha pelos votos quanto uma batalha pela atenção.

WhatsApp, TikTok, YouTube e a batalha das narrativas

O sistema midiático brasileiro tornou-se profundamente híbrido. Os meios de comunicação tradicionais continuam poderosos, mas coexistem com WhatsApp, YouTube, Instagram, TikTok, X e outras plataformas que permitem a candidatos, influenciadores, militantes e cidadãos produzir diretamente narrativas políticas. O poder de definir a agenda, portanto, já não pertence exclusivamente às grandes redações.

Essa transformação possui uma dimensão democrática positiva: permite que grupos anteriormente marginalizados participem diretamente do debate público. Mas também cria uma vulnerabilidade importante. Os algoritmos frequentemente recompensam conteúdos emocionais, conflituosos ou espetaculares, o que pode favorecer a polarização. Rumores podem circular mais rapidamente do que sua verificação, enquanto comunidades digitais podem aprisionar eleitores em ambientes informacionais nos quais opiniões divergentes se tornam quase invisíveis.

A campanha de 2026 deve, portanto, ser compreendida como uma batalha de narrativas. A questão não será apenas saber qual candidato possui o melhor programa, mas quem conseguirá impor uma determinada interpretação da realidade: crise ou recuperação econômica, soberania ou cooperação internacional, segurança ou repressão, proteção da Amazônia ou obstáculo ao desenvolvimento, defesa da democracia ou defesa da ordem.

A inteligência artificial entra na arena eleitoral

Pela primeira vez, a inteligência artificial ocupa um espaço suficientemente importante para tornar-se uma questão eleitoral por si mesma. A produção automatizada de textos, imagens, vozes e vídeos abre possibilidades inéditas de comunicação política, mas também cria riscos consideráveis para a integridade do pleito.

O Tribunal Superior Eleitoral reforçou especificamente suas regras para a eleição de 2026. As disposições adotadas regulamentam o uso da inteligência artificial na propaganda eleitoral e procuram, particularmente, impedir a utilização de deepfakes destinados a favorecer ou prejudicar uma candidatura. A propaganda eleitoral está autorizada a partir de 16 de agosto de 2026.

A questão, porém, vai além da simples proibição técnica. O verdadeiro desafio será o da confiança. Em um ambiente no qual um vídeo realista pode ser fabricado ou manipulado, o eleitor terá progressivamente de aprender a distinguir uma informação autêntica de um conteúdo artificialmente construído. A defesa da eleição torna-se, assim, também uma questão de cultura digital e educação cívica.

O TSE e a defesa da integridade eleitoral

A Justiça Eleitoral constitui um dos pilares mais importantes do sistema brasileiro. O Tribunal Superior Eleitoral é a autoridade máxima da Justiça Eleitoral nacional e coordena, juntamente com os tribunais regionais, a organização do processo eleitoral.

Seu papel será particularmente sensível em 2026. Deverá simultaneamente garantir a regularidade do pleito, supervisionar as regras de propaganda, combater a desinformação e preservar a confiança no sistema de votação eletrônica. O TSE já desenvolveu mecanismos específicos de combate à desinformação e aos deepfakes, bem como estruturas dedicadas à inteligência artificial e aos direitos digitais.

Essa função tornou-se estratégica porque a legitimidade de uma eleição contemporânea depende tanto do resultado material quanto da aceitação coletiva desse resultado. Uma instituição eleitoral eficaz deve, portanto, garantir duas coisas simultaneamente: que os votos sejam corretamente contabilizados e que os cidadãos tenham confiança suficiente no processo para aceitar o veredito das urnas.

As Forças Armadas e a aceitação do resultado

A relação entre as Forças Armadas e a democracia continua sendo uma questão sensível, mas deve ser abordada com prudência. As eleições de 2026 não devem ser analisadas apenas pelo prisma de uma eventual intervenção militar. O verdadeiro indicador democrático será, antes, a capacidade de todas as instituições, incluindo as Forças Armadas, de respeitar a Constituição, a autoridade civil e o resultado oficialmente proclamado.

A experiência recente demonstrou quão perigosa pode tornar-se a contestação do resultado eleitoral quando a polarização política se transforma em uma crise de legitimidade. A consolidação democrática do Brasil dependerá, portanto, menos da neutralidade absoluta de cada ator político do que da existência de um consenso mínimo em torno de uma regra fundamental: uma eleição só pode funcionar se a derrota for reconhecida como uma possibilidade legítima.

O dinheiro, as redes e as infraestruturas invisíveis da campanha

A competição eleitoral não ocorre apenas diante das câmeras. Ela também depende de recursos financeiros, organizações territoriais, redes de militantes, grupos de pressão e infraestruturas digitais capazes de transformar uma mensagem em mobilização eleitoral. A regulamentação brasileira do financiamento político procura enquadrar esses fluxos, mas a crescente sofisticação das campanhas digitais torna a fiscalização mais complexa.

O poder econômico identificado na primeira parte recupera aqui toda a sua importância. A influência dos grandes setores econômicos não significa necessariamente que eles controlem diretamente as eleições; ela reside, antes, em sua capacidade de participar do debate público, financiar legalmente determinadas atividades políticas, influenciar as políticas econômicas e exercer peso sobre as coalizões. A verdadeira questão estratégica é, portanto, a transparência: até que ponto os interesses econômicos podem influenciar a democracia sem comprometer a igualdade política entre os cidadãos?

As potências estrangeiras e a soberania eleitoral

A dimensão internacional da eleição será particularmente forte. Os Estados Unidos, a China, a União Europeia e outras grandes potências terão interesses na orientação futura da política brasileira, seja no comércio, na Amazônia, nos minerais estratégicos, nos BRICS, na energia ou na governança mundial.

Mas é necessário distinguir cuidadosamente influência internacional e ingerência eleitoral. As grandes potências podem procurar defender seus interesses por meio da diplomacia, das relações comerciais, de declarações públicas, de investimentos ou de parcerias estratégicas sem necessariamente intervir diretamente no processo eleitoral. As acusações de ingerência devem, portanto, ser examinadas com base em fatos verificáveis, e não em hipóteses.

Essa questão, contudo, tornou-se politicamente central. O próprio Lula colocou a soberania nacional no centro de sua campanha, enquanto Flávio Bolsonaro defende uma relação estratégica mais estreita com os Estados Unidos. A dimensão internacional, portanto, não será externa à eleição: fará parte do próprio debate eleitoral. As primeiras semanas de agosto de 2026 já demonstram que a questão da influência estrangeira se tornou um tema de campanha.

O que as pesquisas realmente dizem

Em meados de agosto de 2026, Lula mantém vantagem nos principais cenários medidos, mas a diferença em relação a Flávio Bolsonaro não é suficientemente ampla para permitir que a eleição seja considerada definida. Na pesquisa CNT/MDA publicada em 11 de agosto, Lula registra 42,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro; Ronaldo Caiado obtém 4,0% e Romeu Zema, 3,3%. Em uma hipótese de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, Lula registra 48,0%, contra 39,1%. A pesquisa entrevistou 2.002 pessoas entre 5 e 9 de agosto, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais.

Esses números devem ser interpretados como uma fotografia, e não como uma profecia. O primeiro turno pode modificar profundamente a configuração do segundo, especialmente por meio da transferência dos votos do centro-direita. Uma campanha eleitoral também pode ser transformada por uma crise econômica, um escândalo, um acontecimento internacional, uma catástrofe ambiental ou uma mudança repentina da opinião pública. A principal conclusão que se pode tirar das pesquisas atuais, portanto, não é que Lula tenha vitória assegurada, mas que o pleito permanece aberto, polarizado e suscetível a um estreitamento da disputa.

Três batalhas em uma única eleição

A eleição de 2026 deve, finalmente, ser compreendida como três eleições simultâneas. A primeira é a disputa presidencial entre Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos. A segunda é a batalha parlamentar, que determinará a capacidade do futuro presidente de governar. A terceira é a batalha informacional, que determinará como os cidadãos perceberão os candidatos, seus programas e a legitimidade do processo eleitoral.

Essas três dimensões são indissociáveis. Um presidente pode vencer a eleição, mas perder a capacidade de governar no Congresso. Uma campanha pode vencer a batalha midiática, mas perder a confiança dos eleitores. Uma vitória eleitoral pode ser juridicamente incontestável e, ainda assim, tornar-se politicamente frágil se uma parcela significativa do país se recusar a reconhecer sua legitimidade.

Uma eleição que ultrapassará as fronteiras do Brasil

O pleito de 2026 terá, portanto, uma repercussão que ultrapassará amplamente as fronteiras brasileiras. A escolha dos eleitores influenciará a política climática mundial, as relações entre China e Estados Unidos, o futuro dos BRICS, a evolução do Mercosul, a governança da Amazônia, os mercados agrícolas e minerais, bem como o equilíbrio político da América do Sul.

Mas seu desafio mais profundo talvez seja interno: o Brasil conseguirá transformar sua polarização em uma competição democrática duradoura, em vez de um conflito permanente? A resposta dependerá tanto do candidato eleito quanto de sua capacidade de respeitar as instituições, negociar com seus adversários e aceitar os limites constitucionais do poder.

A eleição de 2026, portanto, não decidirá apenas quem governará o Brasil. Ela contribuirá para determinar que tipo de potência o país se tornará durante os anos 2030: uma potência democrática capaz de conciliar crescimento e inclusão; uma potência mais liberal e conservadora, voltada para a soberania econômica e as alianças estratégicas; ou uma potência paralisada pela polarização e pelo confronto institucional. Nessa perspectiva, a verdadeira pergunta colocada aos eleitores brasileiros não é apenas «Quem deve governar?», mas «Que Brasil queremos ver emergir no mundo?».

PROJEÇÕES 2030–2050

QUAL POTÊNCIA PARA O BRASIL?

A eleição presidencial de 2026 constituirá um importante ponto de inflexão na história política recente do Brasil, mas não determinará, por si só, a trajetória do país nas duas décadas e meia seguintes. O Brasil está submetido a forças estruturais que ultrapassam amplamente as alternâncias políticas: evolução demográfica, urbanização, transformação tecnológica, transição energética, mudanças climáticas, evolução dos mercados agrícolas e minerais, competição entre as grandes potências e transformação do sistema internacional. O verdadeiro desafio do período 2030–2050 será, portanto, menos saber qual campo político terá vencido uma eleição do que determinar se o Brasil conseguirá converter seus imensos recursos naturais, humanos e econômicos em uma potência sustentável, produtiva, tecnologicamente avançada e politicamente estável.

Essa questão é ainda mais importante porque o Brasil dispõe de um potencial excepcional. Quinto maior país do mundo em extensão territorial, dotado de um enorme mercado interno, de uma das agriculturas mais competitivas do planeta, de recursos energéticos consideráveis, de minerais estratégicos, de uma biodiversidade única, de uma indústria diversificada e de um peso diplomático superior ao da maioria das potências emergentes, o país reúne os principais atributos de uma grande potência. Entretanto, potencial não significa automaticamente poder efetivo. As desigualdades, os déficits de infraestrutura, as fragilidades educacionais, a criminalidade, a complexidade tributária, a baixa produtividade e as dificuldades de governança continuam limitando a capacidade brasileira de transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas duradouras.

O período 2030–2050 será, assim, marcado por uma escolha histórica entre diferentes trajetórias possíveis. O Brasil poderá tornar-se uma potência verde e tecnológica capaz de desempenhar um papel central na transição mundial; poderá privilegiar uma estratégia mais liberal, extrativista e orientada para o investimento; poderá manter um compromisso pragmático entre essas duas orientações; ou, no cenário mais desfavorável, poderá permitir que sua polarização política e suas fragilidades institucionais reduzam progressivamente sua capacidade de ação. Esses cenários não constituem previsões. São trajetórias possíveis, condicionadas por decisões políticas, condições econômicas e fatores internacionais que permanecem parcialmente imprevisíveis.

CENÁRIO 1: A POTÊNCIA VERDE E TECNOLÓGICA

Nessa primeira trajetória, o Brasil consegue transformar sua vantagem ambiental e energética em uma verdadeira vantagem geoeconômica. A proteção da Amazônia passa progressivamente a ser compatível com uma estratégia de desenvolvimento baseada na bioeconomia, nas energias renováveis, na agricultura de baixo carbono, nos minerais estratégicos e nas tecnologias limpas. O país não abandona a exploração de seus recursos naturais, mas procura aumentar significativamente o valor agregado produzido em seu próprio território. O objetivo deixa de ser apenas exportar soja, minério de ferro, petróleo ou lítio e passa a incluir uma participação crescente nas cadeias industriais e tecnológicas que utilizam esses recursos.

Nesse cenário, a transição energética mundial representa uma oportunidade histórica. O Brasil já dispõe de uma vantagem importante graças ao peso significativo das fontes renováveis em seu sistema elétrico e ao seu extraordinário potencial em hidroeletricidade, energia eólica, solar e biomassa. O desenvolvimento do hidrogênio verde, dos combustíveis sustentáveis, dos biocombustíveis avançados e das tecnologias de armazenamento poderia fortalecer ainda mais essa posição. O país também poderia tornar-se um importante fornecedor de minerais críticos necessários às baterias, às redes elétricas, aos veículos elétricos e às tecnologias de defesa. Entretanto, o verdadeiro sucesso dependeria da capacidade brasileira de transformar esses recursos em indústrias nacionais, em vez de reproduzir um modelo essencialmente baseado na exportação de matérias-primas.

A Amazônia deixaria então de ser vista apenas como um território a ser protegido e passaria a ser considerada também um ativo estratégico nacional e mundial. A valorização econômica da biodiversidade, as biotecnologias, a pesquisa farmacêutica, os conhecimentos tradicionais e os mecanismos internacionais de financiamento climático poderiam criar novas fontes de receita. Uma estratégia dessa natureza exigiria, contudo, uma proteção muito mais eficaz dos territórios indígenas, um combate crível à exploração ilegal e uma estrutura de governança capaz de conciliar os interesses do Estado, das populações locais, da agricultura, da indústria e das comunidades indígenas.

No plano internacional, esse Brasil manteria uma política de autonomia estratégica. Continuaria comercializando intensamente com a China, ao mesmo tempo em que aprofundaria suas relações com os Estados Unidos, a União Europeia, a Índia, a África e outras economias emergentes. Os BRICS permaneceriam como instrumento de diversificação e de reforma da governança mundial, e não como um bloco ideológico. O Brasil procuraria evitar uma escolha definitiva entre Pequim e Washington, preferindo transformar sua posição intermediária em capacidade de negociação.

Esse cenário seria favorável à democracia, à coesão social e à projeção internacional do país, mas não estaria isento de dificuldades. A transição exigiria investimentos públicos e privados significativos, uma profunda reforma educacional, aumento da produtividade e capacidade política para resistir aos interesses setoriais contrários às mudanças estruturais. O êxito dependeria, portanto, menos da vontade política de um único governo do que da capacidade do sistema brasileiro de manter uma estratégia nacional durante várias décadas.

CENÁRIO 2: O COMPROMISSO PRAGMÁTICO

O cenário do compromisso poderá, no fim, ser o mais compatível com a própria tradição política brasileira. Não seria nem uma transformação social e ecológica radical, nem uma liberalização econômica completa. O país avançaria por meio de compromissos sucessivos entre diferentes forças políticas, econômicas e sociais. Os governos sucessivos preservariam parte das políticas sociais, prosseguiriam com determinadas privatizações, estimulariam o investimento privado, manteriam políticas ambientais mínimas e continuariam praticando uma diplomacia pragmática entre as grandes potências.

Nessa trajetória, o Brasil provavelmente não experimentaria nem uma ruptura espetacular nem uma transformação completa. O crescimento poderia permanecer moderado, mas suficientemente regular para permitir uma melhoria progressiva do padrão de vida. A agricultura continuaria desempenhando um papel central, enquanto a indústria preservaria determinados setores estratégicos, como aeronáutica, defesa, energia, biocombustíveis e algumas tecnologias digitais. As reformas avançariam lentamente, de acordo com coalizões parlamentares variáveis e compromissos entre o governo federal, os estados, as grandes empresas e os diferentes grupos sociais.

Essa trajetória teria a vantagem de limitar rupturas políticas. O sistema democrático permaneceria funcional, ainda que a polarização continuasse produzindo crises periódicas. As eleições permaneceriam altamente competitivas, mas as alternâncias seriam geralmente aceitas. O papel do Congresso e dos governos estaduais continuaria sendo decisivo, confirmando o caráter profundamente negociado do sistema político brasileiro.

No plano internacional, o pragmatismo também seria a regra. A China continuaria sendo um parceiro econômico essencial; os Estados Unidos permaneceriam uma potência estratégica incontornável; a União Europeia conservaria uma importância comercial e ambiental significativa; enquanto as relações com a África e a Índia ganhariam progressivamente maior relevância. O Brasil procuraria menos escolher um lado do que maximizar sua autonomia em um sistema internacional cada vez mais fragmentado.

O principal risco desse cenário seria justamente a ausência de uma ruptura. O compromisso pode garantir estabilidade, mas também pode impedir as transformações necessárias. Se as reformas estruturais forem constantemente adiadas, o Brasil poderá preservar suas vantagens sem conseguir ultrapassar o limiar que separa uma grande economia emergente de uma potência mundial plenamente estruturada. Em 2050, poderá ser mais rico e moderno do que em 2026, mas ainda enfrentará os mesmos problemas fundamentais de desigualdade, produtividade e governança.

CENÁRIO 3: A POTÊNCIA LIBERAL E SOBERANISTA

Nesse terceiro cenário, uma coalizão política de direita e centro-direita consegue impor uma orientação baseada sobretudo na disciplina fiscal, na liberalização econômica, nos investimentos privados, na redução das restrições regulatórias e na exploração acelerada dos recursos naturais. O objetivo seria estimular o crescimento por meio do investimento, melhorar a competitividade das empresas e fortalecer a integração do Brasil aos mercados mundiais.

Uma estratégia dessa natureza poderia produzir resultados econômicos significativos se fosse acompanhada por uma modernização das infraestruturas, uma reforma tributária eficiente e um ambiente institucional estável. Os investimentos estrangeiros poderiam aumentar nos setores de energia, infraestrutura, minerais críticos, tecnologia e agricultura. A privatização ou modernização de determinadas empresas estatais poderia melhorar sua eficiência, enquanto a simplificação administrativa poderia reduzir o custo de funcionamento da economia.

A dimensão soberanista dessa trajetória seria particularmente importante. Diferentemente de uma simples política de alinhamento internacional, o Brasil poderia buscar o fortalecimento de suas relações estratégicas com os Estados Unidos enquanto preservaria seus intercâmbios com a China. Uma aproximação com Washington poderia tornar-se particularmente visível nas áreas de defesa, tecnologias avançadas, cibersegurança, espaço e cadeias estratégicas de abastecimento. Entretanto, uma ruptura com Pequim seria dificilmente compatível com os interesses econômicos brasileiros. Mesmo um governo fortemente orientado para os Estados Unidos teria interesse em preservar uma relação comercial estável com seu principal parceiro asiático.

A questão ambiental seria mais conflituosa. Uma política favorável à agricultura, às infraestruturas, à mineração e aos hidrocarbonetos poderia acelerar o crescimento, mas também criaria tensões com organizações ambientais, povos indígenas, União Europeia e determinados parceiros internacionais. O desafio seria, portanto, determinar se uma estratégia de desenvolvimento baseada na exploração de recursos poderia ser compatível com normas ambientais suficientemente rigorosas para preservar o acesso do Brasil aos mercados internacionais.

O risco dessa trajetória seria uma ampliação das desigualdades caso os ganhos do crescimento se concentrassem nos setores mais capitalizados. Por outro lado, uma política liberal acompanhada por melhoria da educação, uma rede de proteção social eficiente e investimentos maciços em infraestrutura poderia produzir um modelo diferente: uma economia mais competitiva sem necessariamente abandonar os objetivos de coesão social.

O verdadeiro desafio, portanto, não seria saber se o Brasil se tornaria «mais à direita», mas se a liberalização conseguiria aumentar de maneira duradoura a produtividade sem destruir a coesão social.

CENÁRIO 4: A FRAGMENTAÇÃO E A CRISE DE GOVERNABILIDADE

O quarto cenário é o mais desfavorável. Ele não pressupõe necessariamente uma guerra civil ou um colapso do Estado, mas uma deterioração progressiva da capacidade do sistema político de produzir decisões coletivas. A polarização poderia tornar-se permanente, eleições sucessivas poderiam ser acompanhadas por contestações, as relações entre o Poder Executivo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal poderiam deteriorar-se, enquanto as redes sociais amplificariam os conflitos.

Em tal situação, o principal problema do Brasil não seria a ausência de recursos, mas a incapacidade de transformá-los em políticas públicas coerentes. Reformas tributárias e administrativas poderiam ser bloqueadas, investimentos adiados, infraestruturas insuficientemente modernizadas e a confiança de empresas e cidadãos progressivamente enfraquecida. O crescimento poderia permanecer baixo justamente quando as necessidades sociais aumentassem.

As tensões ambientais também poderiam se agravar. Uma governança fragmentada tornaria mais difícil o combate ao desmatamento, à mineração ilegal e aos incêndios. Catástrofes climáticas poderiam provocar deslocamentos populacionais e aumentar as tensões entre regiões. Conflitos fundiários, violência urbana e desigualdades territoriais poderiam tornar-se mais difíceis de administrar.

Esse cenário não significa necessariamente que o Brasil se transformaria em um Estado falido. Sua dimensão econômica, a solidez de determinadas instituições, seu sistema judiciário, seus governos estaduais e sua experiência democrática constituiriam fatores importantes de resiliência. O perigo seria, antes, o surgimento de uma democracia funcional, porém permanentemente paralisada, na qual as instituições continuam existindo sem conseguir responder de maneira eficaz às transformações do país.

Em sua forma mais grave, uma crise dessa natureza poderia provocar uma redução da influência internacional do Brasil. Parceiros estrangeiros procurariam diversificar suas fontes de abastecimento, os investimentos desacelerariam e os países vizinhos sul-americanos poderiam buscar novos polos de liderança. A Amazônia também se tornaria mais vulnerável, enquanto a capacidade brasileira de desempenhar um papel estabilizador nas crises regionais diminuiria.

Esse cenário continua sendo o mais pessimista e não deve ser considerado o cenário central. Sua função nesta análise prospectiva é lembrar que uma potência não depende apenas de seus recursos materiais: depende também da qualidade de suas instituições e de sua capacidade de manter um mínimo de coesão nacional.

AS GRANDES VARIÁVEIS QUE DETERMINARÃO O BRASIL DE 2050

Além dos quatro cenários, várias variáveis estruturais determinarão a trajetória real do país. A primeira é a demografia. O Brasil entra progressivamente em uma fase de envelhecimento populacional e de desaceleração do crescimento de sua população ativa. Essa transformação terá consequências para a previdência, a saúde, a educação, a produtividade, a imigração e as finanças públicas. A questão central será saber se o aumento da produtividade poderá compensar a redução progressiva do dinamismo demográfico.

A segunda variável é a tecnologia. A inteligência artificial, a robotização, as biotecnologias, a automação agrícola, os satélites, a cibersegurança e as novas tecnologias energéticas poderão modificar profundamente a estrutura da economia brasileira. O país já possui competências importantes em finanças digitais, agricultura de precisão, aeronáutica e determinadas áreas da biotecnologia. Seu verdadeiro desafio, porém, será passar de consumidor de tecnologias estrangeiras a produtor relevante de tecnologias estratégicas.

A terceira variável é a reindustrialização. O Brasil terá de decidir se aceita permanentemente o papel de grande fornecedor mundial de matérias-primas ou se procurará subir nas cadeias de valor. Os minerais críticos oferecem uma oportunidade excepcional. O país poderá exportar não apenas minério, mas também componentes, materiais processados, baterias, equipamentos energéticos e tecnologias associadas. A mesma lógica poderá ser aplicada à agricultura, ao petróleo, à biodiversidade e à aeronáutica.

A quarta variável é a segurança alimentar mundial. O Brasil poderá tornar-se um dos principais fornecedores de proteínas, cereais, açúcar, café e biocombustíveis do século XXI. Essa capacidade alimentar lhe conferirá uma influência geopolítica crescente, especialmente junto à China, ao Oriente Médio, à África e a outras economias dependentes das importações de alimentos. Mas essa potência agrícola estará diretamente vinculada à capacidade do país de preservar seus recursos hídricos, seus solos e seus ecossistemas.

A quinta variável é o clima. Entre 2030 e 2050, secas, incêndios, inundações e eventos meteorológicos extremos poderão modificar profundamente os equilíbrios econômicos do país. Agricultura, energia hidrelétrica, infraestrutura urbana e segurança alimentar serão diretamente afetadas. A Amazônia estará no centro dessa equação. Sua degradação não representaria apenas uma catástrofe ecológica; poderia transformar-se em uma crise econômica e estratégica nacional.

2030: O PRIMEIRO TESTE

O horizonte de 2030 permitirá avaliar se a trajetória resultante das eleições de 2026 terá produzido transformações duradouras. Os indicadores mais importantes não serão apenas o crescimento do PIB ou o nível dos investimentos. Será necessário observar a produtividade, o emprego formal, as infraestruturas, a pobreza, a criminalidade, o desmatamento, a qualidade dos serviços públicos e a capacidade do governo de trabalhar com o Congresso.

Nesse horizonte, o Brasil também deverá começar a demonstrar que consegue explorar seu potencial energético e mineral sem comprometer seus compromissos climáticos. O desenvolvimento das energias renováveis, do hidrogênio verde, dos biocombustíveis e dos minerais estratégicos poderá constituir os primeiros sinais de uma nova economia brasileira.

2035: O TESTE DA TRANSFORMAÇÃO

Em 2035, as diferenças entre os diferentes cenários tornar-se-ão mais visíveis. Um Brasil que tenha conseguido melhorar seu sistema educacional, suas infraestruturas, sua produtividade e sua capacidade de inovação poderá começar a ultrapassar um novo limiar econômico. Em contrapartida, um país que tenha adiado reformas estruturais correrá o risco de permanecer preso a um crescimento médio e a uma dependência persistente das matérias-primas.

A questão industrial será então decisiva. O Brasil terá de demonstrar se se tornou um participante relevante das cadeias globais de valor ou se continua sendo principalmente um fornecedor de recursos. Essa distinção determinará em grande medida seu poder de negociação diante da China, dos Estados Unidos e da União Europeia.

2040: O TESTE DA POTÊNCIA

Em 2040, o debate já não estará limitado ao crescimento econômico. Ele envolverá a capacidade do Brasil de exercer verdadeira influência internacional. Uma potência mundial deve ser capaz de defender seus interesses, propor soluções para crises internacionais, dominar determinadas tecnologias estratégicas, garantir sua segurança energética e alimentar e manter um nível suficiente de coesão política.

Nessa etapa, o Brasil poderá tornar-se um dos principais polos de um mundo multipolar. Seu peso poderá resultar de uma combinação particularmente rara: recursos naturais, agricultura, energia, indústria, biodiversidade, mercado interno, diplomacia e influência cultural. Mas essa posição dependerá de sua capacidade de superar as fragilidades identificadas nas primeiras partes deste estudo.

2050: A ESCOLHA ENTRE POTENCIAL E PODER

Em 2050, o Brasil poderá encontrar-se diante de uma das três grandes situações históricas seguintes: ter transformado seu enorme potencial em uma potência mundial estruturada; ter permanecido como uma grande potência emergente, importante, porém parcialmente subaproveitada; ou ter permitido que suas fraturas internas limitassem de forma duradoura sua influência.

A primeira trajetória faria do Brasil uma potência verde, agrícola, energética, industrial e tecnológica, capaz de desempenhar um papel central na governança mundial. A segunda produziria um país rico em recursos e influente, mas ainda confrontado com problemas estruturais persistentes. A terceira reduziria progressivamente sua capacidade de transformar recursos em poder econômico e diplomático.

A questão fundamental, portanto, não será saber se o Brasil possui os recursos necessários para se tornar uma grande potência. Ele já os possui. A verdadeira questão será saber se dispõe das instituições, das competências, da coesão social e da visão estratégica necessárias para transformá-los em poder duradouro.

O BRASIL ENTRE AS GRANDES POTÊNCIAS

Independentemente da orientação política resultante das eleições de 2026, uma constante provavelmente permanecerá: o Brasil buscará preservar sua liberdade estratégica. Não possui interesse estrutural em tornar-se simplesmente um aliado de Washington, mas também não tem interesse em depender excessivamente de Pequim. Sua estratégia mais racional consiste em manter múltiplas parcerias simultaneamente, explorando sua posição de potência continental e de grande economia emergente.

Essa estratégia poderá estender-se muito além do tradicional triângulo China–Estados Unidos–Europa. Índia, África, Oriente Médio e outras economias emergentes poderão tornar-se parceiros cada vez mais importantes. O Brasil poderá desempenhar, particularmente, um papel de ponte entre a América Latina e a África, dois espaços nos quais sua influência histórica, cultural e diplomática oferece possibilidades ainda amplamente subexploradas.

Seu futuro internacional dependerá, portanto, menos da escolha de um campo do que de sua capacidade de tornar-se indispensável para vários campos simultaneamente.

A QUESTÃO ÚLTIMA

O Brasil entra na segunda metade do século XXI em uma situação paradoxal. Possui recursos suficientes para se tornar uma superpotência regional incontestável e uma potência mundial de primeira ordem, mas continua enfrentando fragilidades que impedem que esse poder potencial se transforme plenamente em poder efetivo.

Seu destino dependerá de sua capacidade de resolver uma série de contradições: produzir mais enquanto reduz as desigualdades; explorar seus recursos enquanto protege a Amazônia; comercializar com a China enquanto preserva sua autonomia estratégica; cooperar com os Estados Unidos sem tornar-se dependente; modernizar o Estado sem enfraquecer a democracia; utilizar a inteligência artificial sem ampliar as fraturas sociais; desenvolver a agricultura sem esgotar os recursos naturais; e manter uma identidade nacional forte enquanto assume uma responsabilidade crescente na governança mundial.

É por isso que a eleição de 2026 não deve ser considerada o fim da análise, mas o ponto de partida de uma transformação muito mais profunda. Os presidentes podem modificar políticas públicas; não podem abolir as grandes tendências demográficas, econômicas, tecnológicas e ambientais que estruturam o futuro de um país. O que determinará o Brasil de 2050 será, portanto, o encontro entre as escolhas políticas realizadas depois de 2026 e essas forças estruturais de longo prazo.

O verdadeiro desafio histórico será, finalmente, este: o Brasil aceitará permanecer uma potência de potencial ou conseguirá tornar-se uma potência de transformação?

É nessa resposta que estará em jogo não apenas o futuro do Brasil, mas também uma parte significativa do equilíbrio político, econômico, ambiental e geopolítico da América Latina e do mundo.

O BRASIL DIANTE DE SUA NOVA FRONTEIRA POLÍTICA

Uma democracia que muda de geração, de território e de ecossistema informacional

As transformações que moldarão o futuro político do Brasil não ocorrerão apenas no Palácio do Planalto, no Congresso ou diante dos tribunais. Elas também se desenrolam no seio da sociedade, entre as novas gerações, nas grandes cidades como nas periferias e, cada vez mais, nos espaços digitais onde milhões de brasileiros constroem suas percepções políticas. Compreender o Brasil que entra nas próximas décadas exige, portanto, ir além da simples questão de saber quem vencerá uma eleição e examinar quem transforma o eleitorado, como se formam as novas identidades políticas e quais forças sociais determinarão a orientação do país.

Essa dimensão ganha ainda mais importância porque o ambiente político sul-americano também passa por profundas transformações. A emergência de governos de direita ou de direita radical em vários países, o enfraquecimento dos partidos tradicionais, a ascensão de líderes que se apresentam como figuras de ruptura e a crescente personalização do poder transformam o mapa político regional. A Argentina tornou-se, sob Javier Milei, um verdadeiro laboratório político, enquanto a Colômbia entrou em uma nova fase com a chegada ao poder de um presidente de direita em 2026. O fenômeno não significa que a América do Sul esteja evoluindo uniformemente para a direita. Ele revela, antes, uma crescente fragmentação dos eleitorados, em busca de novas respostas para a insegurança, a inflação, as desigualdades, a corrupção e a desconfiança em relação às instituições tradicionais.

I. A ARGENTINA: O VIZINHO QUE MODIFICA A EQUAÇÃO REGIONAL

A relação entre Brasil e Argentina sempre ultrapassou o âmbito de uma simples relação bilateral. As duas principais economias da América do Sul constituem o núcleo histórico do Mercosul e exercem uma influência determinante sobre os equilíbrios regionais. A chegada de Javier Milei à presidência argentina introduziu, portanto, uma tensão ideológica particularmente significativa diante do modelo político defendido por Lula.

A divergência não é apenas econômica. Enquanto o governo brasileiro continua defendendo um Estado dotado de importante capacidade de intervenção, políticas sociais e uma diplomacia multilateral relativamente autônoma, Milei construiu seu projeto político em torno de uma redução radical do papel do Estado, de uma orientação econômica fortemente liberal e de uma relação estratégica estreita com os Estados Unidos. Essa diferença fez das relações entre Buenos Aires e Brasília um dos laboratórios mais visíveis da nova fragmentação política sul-americana.

As tensões tornaram-se particularmente visíveis em 2026. Os confrontos verbais entre Milei e Lula contribuíram para deteriorar o clima diplomático, enquanto a relação mais ampla continua marcada por suas orientações políticas profundamente diferentes. Ao mesmo tempo, as pesquisas de opinião na Argentina mostram que uma parcela importante da população rejeita os ataques pessoais contra Lula, ao mesmo tempo em que reconhece a importância econômica do Brasil para a Argentina. Essa situação revela um paradoxo fundamental: os governos podem se afastar ideologicamente enquanto as sociedades e as economias permanecem profundamente interdependentes.

Para o Brasil, a experiência argentina constitui também um alerta. Uma estratégia política pode rapidamente modificar a orientação de um país, mas não pode abolir a geografia. A Argentina continuará precisando do Brasil, e o Brasil continuará precisando da Argentina. A questão será saber se a competição ideológica acabará enfraquecendo o Mercosul ou se os interesses econômicos obrigarão os dois governos a preservar um mínimo de cooperação.

II. UMA NOVA DIREITA SUL-AMERICANA?

A transformação regional ultrapassa amplamente a Argentina. Em vários países, novas forças conservadoras associam liberalismo econômico, nacionalismo, discurso de segurança, defesa dos valores tradicionais e rejeição às elites políticas convencionais. Seria, contudo, enganoso falar de uma única «nova direita» sul-americana. As experiências nacionais são diferentes, assim como as coalizões sociais que as sustentam.

O fenômeno Milei possui uma característica particular: busca transformar a redução do Estado e a disciplina fiscal em uma ruptura com várias décadas de política econômica. O fenômeno bolsonarista nasceu de uma combinação diferente de conservadorismo social, nacionalismo, preocupações com segurança e oposição à esquerda. A nova fase política colombiana introduz, por sua vez, outra variante, estruturada em torno da segurança, da reorganização econômica e de uma retórica conservadora.

Esses movimentos podem influenciar-se mutuamente sem necessariamente constituir um bloco político coerente. O futuro da região dependerá, em parte, de sua capacidade de transformar suas convergências ideológicas em cooperação institucional. Uma eventual aproximação entre Buenos Aires e Brasília sob governos de direita poderia modificar sensivelmente o equilíbrio do Mercosul e a orientação geral da América do Sul. Mas uma tal aliança encontraria limites importantes: os interesses nacionais, as estruturas econômicas e as relações com a China continuariam a pesar fortemente.

A questão mais pertinente, portanto, não é saber se a América do Sul «pende para a direita», mas se a região entra em um período de alternância mais intensa, fragmentação política e volatilidade ideológica. Essa segunda leitura permite compreender melhor a complexidade da transformação.

III. UMA GERAÇÃO QUE JÁ NÃO VOTA COMO SEUS PAIS

A transformação política brasileira possui também uma dimensão geracional. Os jovens que atingem a idade eleitoral ao longo desta década cresceram em um país profundamente diferente daquele das grandes mobilizações democráticas dos anos 1980 ou da estabilização econômica do início do século XXI. Para muitos deles, a democracia não é uma conquista histórica recente, mas o sistema político no qual sempre viveram.

Essa diferença pode modificar sua relação com os partidos e as instituições. As novas gerações geralmente consomem informação de maneira mais fragmentada, desconfiam mais das hierarquias tradicionais e constroem suas identidades políticas em torno de questões específicas. Emprego, custo de vida, segurança, educação, oportunidades econômicas, meio ambiente, liberdade individual e reconhecimento social podem pesar mais do que as antigas categorias de esquerda e direita.

Isso não significa que os jovens constituam um bloco político homogêneo. Sua importância reside precisamente em sua diversidade. Alguns podem ser atraídos por propostas progressistas, outros pelo conservadorismo religioso, outros ainda pelo liberalismo econômico, enquanto muitos podem rejeitar as categorias políticas tradicionais. A juventude poderia, assim, tornar-se um eleitorado determinante não porque vote em uma única direção, mas porque pode mostrar-se mais volátil e mais sensível às evoluções políticas.

Essa evolução representa um desafio particular para os partidos tradicionais. As organizações que se limitarem a reproduzir as estruturas, os discursos e as lideranças do passado poderão ter dificuldades para dialogar com um eleitorado cuja relação com a informação e com a autoridade mudou profundamente.

IV. QUANDO A CAMPANHA SAI DOS PARTIDOS

A transformação mais profunda talvez não seja ideológica, mas comunicacional. As campanhas eleitorais já não dependem exclusivamente de comícios, televisão, jornais e estruturas partidárias. A política tornou-se um fluxo contínuo de imagens, vídeos, comentários, transmissões ao vivo e mensagens circulando através das redes pessoais.

Isso modifica profundamente a relação entre candidatos e cidadãos. Um líder político pode agora comunicar-se diretamente com milhões de pessoas sem passar pelos meios de comunicação tradicionais. Um simples cidadão pode temporariamente tornar-se um poderoso transmissor de uma mensagem política. Uma declaração de poucos segundos pode alcançar uma audiência superior à de um discurso político de uma hora.

A consequência é uma aceleração espetacular da vida política. As campanhas podem reagir quase instantaneamente a uma crise, a um escândalo ou a uma declaração. Mas essa velocidade também pode favorecer a simplificação, a polarização e a circulação de conteúdos enganosos. A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão a esse problema. As tecnologias de vozes sintéticas, conteúdos manipulados e geração automatizada tornam progressivamente mais difícil distinguir entre conteúdo autêntico e conteúdo fabricado.

O desafio das próximas eleições, portanto, não será apenas determinar qual candidato possui a campanha digital mais eficaz. Será também preservar a capacidade dos cidadãos de distinguir informação, propaganda, opinião, manipulação e conteúdo gerado artificialmente.

V. O VOTO DOS JOVENS: VARIÁVEL DECISIVA, MAS NÃO AUTOMÁTICA

A juventude terá uma importância considerável nas próximas eleições brasileiras, mas seria perigoso considerá-la uma categoria eleitoral previsível. Não existe um «voto jovem» único. Existem jovens de regiões, classes sociais, comunidades religiosas, níveis educacionais e situações econômicas muito diferentes.

Para alguns, a prioridade será encontrar um emprego e melhorar sua renda. Para outros, a segurança constituirá a preocupação central. Outros ainda darão maior importância à mudança climática, à educação, aos direitos civis ou à corrupção. Nas periferias urbanas, a experiência cotidiana do Estado pode ser radicalmente diferente daquela dos estudantes das grandes universidades ou dos jovens que vivem nos bairros mais favorecidos.

Essa diversidade faz da juventude um eleitorado particularmente disputado. O candidato capaz de combinar oportunidades econômicas, segurança, mobilidade social e uma visão crível do futuro poderá obter uma vantagem importante. Mas essa volatilidade também significa que o apoio conquistado alguns meses antes pode desaparecer rapidamente.

A questão fundamental, portanto, não será apenas saber quantos jovens votarão em cada candidato, mas quais acontecimentos conseguirão mobilizá-los e qual futuro estarão dispostos a defender.

VI. OS ELEITORES QUE PODERIAM FAZER A DIFERENÇA

A eleição brasileira não será necessariamente determinada pelos grupos politicamente mais visíveis. Ela poderá ser decidida por aqueles que não se identificam plenamente com nenhum dos dois grandes campos.

As classes médias urbanas, os trabalhadores preocupados com seu poder de compra, os eleitores independentes, os jovens politicamente voláteis, os eleitorados evangélicos e os eleitores de regiões onde as alianças políticas mudam com mais facilidade poderão desempenhar um papel desproporcional em um eventual segundo turno.

O Nordeste continuará sendo essencial para a esquerda, enquanto o Sul e parte do Sudeste constituem importantes zonas de força para a direita. Mas essas divisões regionais não devem ser consideradas permanentes. As transformações econômicas, as preocupações com segurança, as migrações internas, as mudanças religiosas e as transformações geracionais podem remodelar progressivamente a geografia eleitoral.

A eleição poderá, em última instância, depender de uma questão simples: qual candidato será capaz de convencer os eleitores que não necessariamente desejam votar nele, mas que têm razões suficientes para não votar em seu adversário?

Em uma eleição polarizada, a capacidade de construir uma maioria mais ampla poderá ser mais importante do que a de mobilizar apenas sua própria base eleitoral.

VII. O BRASIL EM UMA AMÉRICA DO SUL FRAGMENTADA

O Brasil continuará sendo importante demais para ignorar seu ambiente regional e autônomo demais para aceitar sem condições uma liderança externa. Mas sua capacidade de exercer liderança regional dependerá, em parte, da evolução política de seus vizinhos.

Uma América do Sul composta por governos pertencentes a diferentes tradições ideológicas exigirá da diplomacia brasileira que trabalhe simultaneamente com governos de esquerda, direita, centro, populistas ou tecnocráticos. Isso exigirá pragmatismo, mesmo quando as divergências políticas forem profundas.

A relação com a Argentina será particularmente importante. Uma relação bilateral hostil poderia enfraquecer a integração regional e limitar o potencial do Mercosul. Uma normalização, ao contrário, poderia demonstrar que a interdependência econômica pode sobreviver à polarização política.

O desafio brasileiro será, portanto, transformar seu peso econômico e demográfico em influência sem buscar impor um modelo ideológico aos seus vizinhos. Uma influência duradoura provavelmente será mais eficaz do que uma lógica de hegemonia.

VIII. 2026: A ELEIÇÃO DE UMA GERAÇÃO

A próxima grande transformação política brasileira não deve ser compreendida exclusivamente como um confronto entre Lula e a direita. Ela será também um confronto entre diferentes concepções do futuro.

Uma parte do país continuará interpretando a política por meio das grandes divisões do passado: esquerda contra direita, Lula contra Bolsonaro, Estado contra mercado, progressismo contra conservadorismo. Outra parte, particularmente entre as novas gerações, poderá progressivamente organizar suas preferências em torno de questões mais concretas: emprego, segurança, oportunidades, tecnologia, meio ambiente, identidade, educação e qualidade de vida.

Essa transformação não eliminará necessariamente a polarização. Poderá até intensificá-la. Mas modificará seus instrumentos e seus protagonistas. O poder político pertencerá cada vez mais àqueles que compreenderem o funcionamento das novas comunidades digitais, a construção das identidades políticas e a mobilização dos eleitores que se sentem insuficientemente representados pelas estruturas tradicionais.

A eleição será, portanto, mais do que uma competição pelo Palácio do Planalto. Ela constituirá um teste da capacidade da democracia brasileira de adaptar-se a uma sociedade em profunda transformação.

O Brasil entra assim em uma nova fronteira política: uma fronteira onde geração, tecnologia, identidade, economia e geopolítica convergem cada vez mais dentro do mesmo espaço eleitoral.

E é precisamente nesse ponto que uma parte essencial do futuro político do Brasil será decidida.

OBSERVAÇÃO DAS INTENÇÕES DE VOTO

Retrato eleitoral a menos de dois meses do primeiro turno

A menos de dois meses do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, previsto para 4 de outubro de 2026, as pesquisas de opinião disponíveis até 12 de agosto desenham um cenário no qual Luiz Inácio Lula da Silva mantém uma posição de liderança, enquanto Flávio Bolsonaro se consolida como o principal adversário do presidente em exercício. O segundo turno, caso seja necessário, está previsto para 25 de outubro pelo Tribunal Superior Eleitoral. Esse calendário recorda uma evidência metodológica que frequentemente se perde de vista no comentário político contemporâneo: as pesquisas nunca descrevem com certeza o resultado futuro; elas medem, em determinado momento, o estado das preferências declaradas de um eleitorado suscetível de evoluir até o dia da votação.

As pesquisas realizadas no início de agosto convergem, antes de tudo, em uma constatação geral. Lula continua na primeira posição nos principais cenários nacionais, mas a dimensão de sua vantagem varia consideravelmente de acordo com o instituto. A pesquisa Nexus/BTG Pactual, realizada de 7 a 9 de agosto, atribui a Lula 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro. A Genial/Quaest, cujo trabalho de campo ocorreu de 31 de julho a 3 de agosto, registra 39% para Lula e 30% para Flávio Bolsonaro. A pesquisa CNT/MDA, realizada de 5 a 9 de agosto, atribui, por sua vez, 42,4% a Lula contra 28,7% a Flávio Bolsonaro. Essas diferenças não constituem uma anomalia. Pelo contrário, lembram que toda pesquisa é resultado de uma amostra específica, de um método de coleta, de um período de trabalho de campo e de um modelo estatístico determinados.

A leitura rigorosa desses números não consiste, portanto, em buscar artificialmente uma média única que crie a ilusão de uma precisão superior àquela oferecida pelas próprias pesquisas. Consiste em identificar aquilo que permanece estável apesar das diferenças metodológicas. Nesse ponto, o sinal é relativamente claro: Lula continua à frente nas pesquisas mais recentes, e Flávio Bolsonaro ocupa a segunda posição. Entretanto, a distância entre os dois candidatos não pode ser apresentada como uma constante. Dependendo do instituto e da data da medição, ela pode parecer relativamente estreita ou consideravelmente maior. Essa diferença é essencial para compreender a natureza da disputa: o presidente em exercício mantém uma vantagem, mas sua profundidade exata continua incerta.

O primeiro turno conserva, além disso, uma estrutura fortemente polarizada. Atrás dos dois principais candidatos, os demais concorrentes permanecem em níveis significativamente inferiores. Na pesquisa CNT/MDA publicada em 11 de agosto, Ronaldo Caiado alcança 4%, Romeu Zema 3,3% e Renan Santos 2,8%, enquanto as demais candidaturas permanecem abaixo do patamar de 2%. A mesma pesquisa registra 7,2% de indecisos e 6,8% de votos em branco ou nulos. Na pesquisa Genial/Quaest, as ordens de grandeza são semelhantes, com 10% de indecisos e 8% de respostas correspondentes a voto em branco, nulo ou intenção de não votar. O primeiro turno aparece, assim, menos como uma disputa entre vários candidatos de peso equivalente do que como uma confrontação estruturada em torno de dois grandes polos, ao lado de um espaço eleitoral ainda disponível para candidaturas secundárias e para os eleitores que ainda não definiram definitivamente sua escolha.

É no cenário de um segundo turno que a dinâmica se torna particularmente reveladora. A pesquisa Nexus/BTG Pactual registra 47% para Lula contra 44% para Flávio Bolsonaro em uma confrontação direta. A diferença é suficientemente estreita para exigir cautela à luz da margem de erro anunciada pelo instituto. A Genial/Quaest coloca Lula em 44% contra 39%, enquanto a CNT/MDA atribui 48% ao presidente em exercício contra 39,1% de seu adversário. Os resultados, portanto, não contam exatamente a mesma história. Ainda assim, convergem em um ponto: Lula continua à frente nos cenários atualmente disponíveis, mas sua vantagem não é uniforme nem suficientemente estável para justificar a ideia de que o resultado já esteja decidido.

Outra pesquisa merece ser considerada para compreender a amplitude das diferenças observadas segundo os métodos. A AtlasIntel/Bloomberg, realizada de 22 a 27 de julho com 5.021 pessoas, situava Lula em 44,9% contra 35,8% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Em seu cenário de segundo turno, atribuía 49,2% a Lula contra 42,9% a Flávio Bolsonaro. Essa pesquisa é anterior às três medições mais recentes de agosto e, portanto, não pode ser utilizada como uma fotografia equivalente realizada na mesma data. Ainda assim, ela permanece útil para medir a diversidade das estimativas produzidas pelos diferentes sistemas de pesquisa.

Essa diversidade metodológica é particularmente importante no caso brasileiro. As principais pesquisas aqui citadas não se baseiam todas no mesmo método de coleta de dados. Algumas utilizam entrevistas telefônicas, outras entrevistas presenciais e outras métodos digitais. Os tamanhos das amostras e as margens de erro também diferem. A prudência exige, portanto, resistir à tentação de comparar cada percentual como se proviesse de uma mesma série estatística. O que merece ser observado não é apenas a cifra isolada, mas a permanência de uma tendência através de várias pesquisas independentes. No caso presente, essa permanência é a presença de Lula na primeira posição e de Flávio Bolsonaro como principal adversário.

Por trás dos números nacionais também existem fraturas territoriais e sociais que continuam sendo fundamentais para compreender o voto brasileiro. O comportamento eleitoral varia segundo as regiões, os níveis de renda, as gerações, as filiações religiosas e as experiências concretas da ação pública. O Nordeste conserva uma importância particular para Lula, enquanto várias áreas do Sul e parte do Sudeste continuam sendo espaços de forte implantação da direita. As diferenças associadas aos níveis de renda mostram igualmente que o comportamento eleitoral não obedece a uma lógica uniforme. Essa geografia eleitoral lembra que o Brasil não constitui um mercado político homogêneo, mas um conjunto de sociedades eleitorais cujas prioridades e relações com o poder podem diferir profundamente.

Essa realidade confere uma importância particular aos eleitores que permanecem indecisos. Nas pesquisas recentes, sua proporção continua sendo suficientemente significativa para que seu comportamento possa influenciar a configuração da disputa. Seu papel, contudo, não deve ser simplificado. Nem todos os indecisos são necessariamente eleitores dispostos a passar de um bloco para outro no último momento. Alguns podem definir progressivamente sua escolha, outros podem aproximar-se de um candidato já favorecido em seu ambiente social, enquanto outros ainda podem modificar sua preferência à medida que avaliam a capacidade de cada candidatura de chegar ao segundo turno. Em uma eleição fortemente polarizada, o voto estratégico pode, portanto, adquirir importância crescente à medida que se aproxima a data da votação.

A questão vai, assim, além de saber qual candidato possui a maior base eleitoral. Em uma disputa em dois turnos, a capacidade de ampliar uma coalizão pode ser decisiva. O candidato capaz de convencer uma parcela dos eleitores que não se identificam plenamente com nenhum dos dois grandes blocos poderá obter uma vantagem potencialmente determinante. A campanha não será decidida apenas pela fidelidade dos eleitorados já conquistados. Também dependerá da capacidade de reduzir resistências, tranquilizar eleitores hesitantes e construir uma maioria suficientemente ampla para sobreviver à lógica de polarização do primeiro turno.

Por isso, as pesquisas devem ser lidas como instrumentos de observação e não como instrumentos de adivinhação. Elas indicam uma possível direção, medem relações de força e permitem identificar evoluções. Não podem antecipar com certeza os efeitos de um debate, de uma crise econômica, de um acontecimento internacional, de um escândalo, de uma campanha digital particularmente eficaz ou de uma mudança repentina na percepção de um candidato. A menos de dois meses das eleições, a distância entre uma tendência mensurável e um resultado eleitoral continua, portanto, sendo real.

Em 12 de agosto de 2026, a conclusão mais rigorosa é relativamente simples. Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo o candidato mais bem posicionado nas principais pesquisas nacionais disponíveis. Flávio Bolsonaro consolidou-se como seu principal adversário e dispõe de uma base eleitoral suficientemente importante para manter uma disputa real. As demais candidaturas continuam desempenhando um papel secundário nas intenções de voto medidas em escala nacional, mas poderiam adquirir importância superior ao seu peso aparente caso influenciassem o acesso ao segundo turno ou a redistribuição de votos entre os dois principais concorrentes.

No entanto, seria prematuro transformar essa hierarquia em uma previsão. Nada do que mostram os dados disponíveis nesta etapa permite considerar a eleição decidida. A formulação jornalística responsável não é, portanto, «Lula será reeleito» nem «Flávio Bolsonaro está ganhando», mas uma observação mais exigente: Lula mantém atualmente a vantagem, enquanto a dinâmica eleitoral continua suficientemente aberta para que o resultado final não possa ser deduzido das pesquisas disponíveis neste momento.

Essa distinção não é simplesmente semântica. Ela reflete uma exigência fundamental do jornalismo de alta qualidade. Um meio de comunicação pode analisar dados, comparar trajetórias, identificar tendências e formular hipóteses. Não deve confundir a observação estatística com uma certeza sobre as decisões futuras do eleitorado. A CPGNNews opta, portanto, por falar em Observação das Intenções de Voto para deixar claro que esta seção constitui uma fotografia datada da disputa eleitoral e não uma proclamação antecipada de seu desfecho.

Em 12 de agosto de 2026, o Brasil ainda não escolheu seu próximo presidente. As pesquisas indicam apenas o estado da correlação eleitoral neste momento específico. O veredito final caberá aos eleitores em 4 de outubro e, se necessário, em 25 de outubro.

NOTA METODOLÓGICA

Esta observação abrange as pesquisas públicas disponíveis em 12 de agosto de 2026 e selecionadas em função de sua atualidade, alcance nacional e disponibilidade de informações metodológicas. A pesquisa Nexus/BTG Pactual foi realizada de 7 a 9 de agosto. A pesquisa CNT/MDA foi realizada de 5 a 9 de agosto com 2.002 eleitores, com margem de erro de 2,2 pontos. A Genial/Quaest realizou seu trabalho de campo de 31 de julho a 3 de agosto com 2.004 eleitores, com margem de erro de 2 pontos. A AtlasIntel/Bloomberg entrevistou 5.021 pessoas de 22 a 27 de julho, com margem de erro declarada de 1 ponto. Essas pesquisas são apresentadas separadamente e não são objeto de qualquer agregação aritmética por parte da CPGNNews. Essa precaução busca preservar as características específicas de cada metodologia e evitar a criação de um nível artificial de precisão que não existe nos dados disponíveis.

Data de referência: 12 de agosto de 2026

SÍNTESE ESTRATÉGICA

O BRASIL DIANTE DE SEU PRÓPRIO PODER

Uma potência continental entre promessa, contradição e responsabilidade

Depois de percorrer a história política do Brasil, observar suas transformações econômicas e sociais, estudar suas fraturas institucionais, explorar a Amazônia, analisar as forças políticas que se preparam para o próximo ciclo eleitoral e considerar as possíveis trajetórias até meados do século, torna-se possível voltar ao essencial. O Brasil não é simplesmente um grande país. Constitui um sistema de poder por direito próprio. Seu território, sua população, seus recursos naturais, sua agricultura, sua indústria, sua energia, seu mercado interno, sua cultura e sua diplomacia conferem-lhe uma profundidade estratégica que poucas nações possuem. Entretanto, essa acumulação de capacidades não produz automaticamente poder efetivo. Entre a riqueza disponível e a riqueza transformada, entre o potencial e sua realização, entre a soberania proclamada e a soberania efetivamente exercida, existe um espaço considerável: o da governança. É precisamente nesse espaço que se decidirá o futuro brasileiro, porque a questão central já não é saber se o Brasil possui os atributos de uma grande potência, mas se será capaz de convertê-los em capacidades duradouras, influência responsável e prosperidade suficientemente ampla para consolidar sua coesão interna.

I. UMA POTÊNCIA QUE POSSUI QUASE TODOS OS ATRIBUTOS DE UM CONTINENTE

A primeira realidade que a análise impõe é dificilmente contestável: o Brasil possui uma concentração excepcional de ativos estratégicos. Seu território de mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados lhe proporciona uma profundidade geográfica incomparável na América Latina, enquanto sua população constitui um dos maiores mercados internos do planeta. Sua agricultura permite-lhe desempenhar um papel fundamental na segurança alimentar mundial, enquanto suas reservas de água, minerais, hidrocarbonetos, biodiversidade e energia lhe conferem uma importância que ultrapassa amplamente suas fronteiras. Esse poder material é reforçado por capacidades que não são imediatamente visíveis nas estatísticas relativas aos recursos naturais: o Brasil possui uma indústria aeronáutica de primeiro nível, uma indústria de defesa significativa, um setor financeiro sofisticado, um ecossistema fintech particularmente dinâmico e uma capacidade científica que, apesar de suas limitações, continua sendo uma das mais importantes do Hemisfério Sul. Sua experiência em biocombustíveis, energia hidrelétrica e, cada vez mais, energia solar e eólica também poderá permitir-lhe tornar-se um dos grandes atores da transição energética mundial.

Mas o poder brasileiro não se limita à economia. Ele também é cultural, impulsionado pelo futebol, pela música, pelo carnaval, pela literatura, pelo cinema e por uma criatividade que construiu um capital simbólico difícil de comparar ao de muitas outras potências emergentes. O Brasil possui essa rara capacidade de ser imediatamente reconhecível em todo o mundo sem precisar recorrer ao poder militar ou à coerção econômica para impor sua identidade. Sua diplomacia constitui outro grande ativo estratégico. O país pode dialogar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou, Nova Délhi, as capitais africanas e seus vizinhos latino-americanos, enquanto sua presença nos BRICS, no G20 e no Mercosul lhe permite ocupar vários espaços geopolíticos ao mesmo tempo. Essa versatilidade é provavelmente uma de suas maiores forças. O Brasil não precisa escolher uma única família geopolítica: possui a capacidade de falar com vários mundos. O desafio será preservar essa autonomia sem permitir que a diversificação de suas parcerias se transforme em ambiguidade estratégica e sem deixar que o equilíbrio entre suas diferentes relações externas se converta em uma fraqueza em vez de uma vantagem.

II. MAS O PODER EXTERNO ESCONDE FRATURAS INTERNAS

Toda potência possui uma vulnerabilidade fundamental: aquilo que mostra ao mundo pode ser muito diferente daquilo que vive internamente, e o Brasil oferece um exemplo particularmente revelador. Por trás dos arranha-céus de São Paulo, dos centros financeiros, das grandes propriedades agrícolas, das infraestruturas industriais e das metrópoles conectadas existem territórios onde o acesso à educação, à saúde, à moradia, à segurança e às oportunidades continua profundamente desigual. Os contrastes territoriais e sociais constituem uma das contradições fundamentais do país, enquanto a violência criminosa acrescenta outra dimensão a essa fragilidade. Organizações criminosas, milícias, redes de tráfico e economias clandestinas não representam apenas um problema de segurança pública: constituem uma questão de soberania. Quando um Estado não consegue exercer plenamente sua autoridade sobre determinados territórios, o poder nacional torna-se necessariamente incompleto, porque a capacidade de um país de agir externamente também depende de sua capacidade de exercer efetivamente suas funções soberanas no interior.

A questão racial e social também continua sendo central. O legado da escravidão não pertence apenas à história brasileira: continua influenciando a distribuição de renda, o acesso às oportunidades e determinadas formas de discriminação, enquanto a situação dos povos indígenas recorda que o desenvolvimento nacional nunca constituiu uma experiência uniforme. A isso se soma uma fraqueza menos espetacular, mas igualmente importante: a dificuldade de transformar de maneira sustentável o poder econômico em qualidade institucional. A complexidade tributária, os déficits de infraestrutura, as desigualdades educacionais, a informalidade do trabalho e as dificuldades de modernização administrativa reduzem o rendimento efetivo dos enormes recursos do país. O Brasil não é, portanto, pobre em possibilidades; às vezes é pobre na conversão institucional de suas possibilidades. Essa distinção permite compreender um dos paradoxos fundamentais da trajetória brasileira: um país pode possuir uma massa excepcional de recursos sem produzir automaticamente o mesmo nível de coesão, eficiência pública e bem-estar coletivo.

III. A OPORTUNIDADE HISTÓRICA: TRANSFORMAR RECURSOS EM VALOR

O século XXI poderia, no entanto, ser particularmente favorável ao Brasil. A transição energética mundial, a busca por novas cadeias de abastecimento, a crescente demanda por minerais estratégicos, a segurança alimentar, as biotecnologias, a inteligência artificial aplicada à agricultura e a bioeconomia oferecem ao país possibilidades consideráveis. A Amazônia poderia tornar-se o próprio laboratório dessa transformação. Durante décadas, o debate opôs duas visões aparentemente irreconciliáveis: explorar ou proteger. Agora é possível conceber uma terceira via: criar valor sem destruir. A biodiversidade pode tornar-se fonte de pesquisa, os conhecimentos tradicionais podem ser protegidos e integrados a programas científicos, a agricultura pode reduzir sua pegada de carbono, as cadeias de valor podem ser modernizadas e as tecnologias digitais podem aumentar a produtividade sem necessariamente ampliar a pressão sobre os territórios.

Essa transformação exige, contudo, uma condição fundamental: o Brasil precisa deixar de ser apenas fornecedor de recursos e tornar-se cada vez mais produtor de valor agregado. Exportar minério não é a mesma coisa que dominar as tecnologias que utilizam esse minério; exportar produtos agrícolas não é a mesma coisa que controlar toda a cadeia alimentar; exportar petróleo não é a mesma coisa que dominar as tecnologias energéticas do futuro. A verdadeira oportunidade brasileira reside, portanto, na transição do poder extrativo ao poder cognitivo, ou seja, na capacidade de transformar a abundância material em inovação, tecnologia, conhecimento e controle das cadeias de valor. Trata-se provavelmente de uma das decisões econômicas mais importantes que o país enfrentará nas próximas décadas, pois determinará em parte se o Brasil continuará sendo sobretudo um grande fornecedor mundial de recursos ou se também se tornará um dos grandes produtores de tecnologias, soluções industriais e conhecimento estratégico.

IV. OS PERIGOS DE UMA POTÊNCIA SOB TENSÃO

Entretanto, quanto mais importante o Brasil se torna, mais sistêmicos se tornam os riscos aos quais está exposto. O primeiro é político: uma polarização prolongada pode transformar cada alternância eleitoral em uma crise existencial. Quando cada lado considera que a vitória do outro constitui uma ameaça à própria existência do país, a democracia deixa progressivamente de ser um mecanismo de resolução de conflitos e transforma-se em seu novo campo de batalha. O segundo risco é econômico: uma economia de tal dimensão continua exposta aos ciclos internacionais, aos preços das commodities, às transformações comerciais e às tensões entre as grandes potências, enquanto uma dependência excessiva de determinados mercados ou produtos pode transformar-se em uma vulnerabilidade estratégica.

O terceiro risco é ambiental. A Amazônia não é apenas uma floresta brasileira: participa do equilíbrio climático e hidrológico do continente. Uma degradação profunda desse ecossistema teria consequências econômicas, agrícolas, sociais e geopolíticas que ultrapassariam amplamente a questão ambiental. O quarto risco é digital, porque o conflito político contemporâneo desloca-se cada vez mais para as plataformas, os algoritmos, as redes sociais e as infraestruturas digitais. Uma democracia pode permanecer juridicamente intacta e, ao mesmo tempo, ser progressivamente desestabilizada pela manipulação da informação. Finalmente, o Brasil deve evitar uma armadilha clássica das potências emergentes: acreditar que soberania significa rejeitar toda influência externa. A verdadeira soberania não significa viver isolado; significa poder escolher suas interdependências, definir suas dependências críticas, diversificar suas parcerias e preservar a capacidade de tomar decisões quando os interesses das grandes potências divergem.

V. OS NÚMEROS NÃO SÃO DETALHES: ELES CONTAM A HISTÓRIA DO PAÍS

As estatísticas essenciais do Brasil revelam uma realidade muito mais complexa do que os slogans políticos. Mais de duzentos milhões de habitantes, um território continental, uma economia de vários trilhões de dólares, um setor agrícola voltado para a exportação, imensos recursos hídricos, uma concentração excepcional de biodiversidade, uma matriz energética amplamente renovável e importantes reservas de petróleo e minerais explicam por que o Brasil não pode ser tratado como uma potência regional comum. No entanto, os indicadores sociais contam outra história. As desigualdades, a violência, a informalidade, as disparidades educacionais, os déficits habitacionais e as diferenças territoriais mostram que o poder macroeconômico não garante automaticamente a prosperidade individual.

Por isso, nenhum indicador isolado pode resumir o Brasil. O PIB diz algo sobre o país, o coeficiente de Gini diz outra coisa, a produção agrícola acrescenta outra dimensão, enquanto as estatísticas de criminalidade e os dados de desmatamento revelam outros aspectos da mesma realidade nacional. O verdadeiro retrato do Brasil aparece quando todos esses dados são observados em conjunto. É precisamente aí que a análise estratégica se torna superior à simples compilação estatística: ela não se limita a justapor números, mas busca compreender as relações entre eles, as tensões que revelam e as consequências que podem produzir sobre a estabilidade política, a coesão social e a posição do Brasil no mundo.

VI. OS HOMENS, AS INSTITUIÇÕES E OS NOVOS CENTROS DE PODER

O Brasil não será moldado apenas por seu presidente, porque o poder brasileiro está muito mais disperso. Ele está no palácio presidencial, mas também no Congresso, no Supremo Tribunal Federal, nos governos estaduais, nas grandes prefeituras, nas igrejas evangélicas, no agronegócio, nos bancos, nas grandes empresas de tecnologia, nos meios de comunicação e, agora, nas plataformas digitais. Essa dispersão explica, em parte, por que nenhum presidente pode governar o Brasil apenas por decreto político. A personalidade de Lula permanece evidentemente central e o legado de Jair Bolsonaro continua estruturalmente importante para a direita conservadora, mas o futuro político dependerá também de uma nova geração de governadores, parlamentares, empresários, magistrados, intelectuais e atores digitais. O Brasil entra, assim, em um período no qual o poder se torna mais horizontal em suas fontes e mais complexo em suas manifestações. A política tradicional conserva sua força, mas já não é a única a fabricar a opinião: um telefone celular pode modificar uma percepção política com mais eficácia do que um discurso parlamentar de várias horas, um vídeo de poucos segundos pode alcançar milhões de jovens eleitores, um influenciador pode tornar-se um intermediário político e um algoritmo pode contribuir para determinar quais argumentos serão vistos, repetidos ou esquecidos. Essa transformação merece atenção particular porque toca na questão mais sensível de toda democracia: quem controla a narrativa coletiva?

VII. UMA HISTÓRIA QUE CONTINUA A PESAR SOBRE O PRESENTE

O Brasil contemporâneo não pode ser compreendido sem sua longa memória histórica. A chegada portuguesa, a escravidão, a independência, a abolição, a República, o Estado Novo, a ditadura militar, a Constituição de 1988, o Plano Real, os governos de Lula e Dilma, as manifestações de 2013, o impeachment de 2016, a chegada de Bolsonaro e o retorno de Lula não constituem simplesmente uma sucessão de datas, mas as diferentes camadas de uma mesma experiência histórica. A democracia brasileira é jovem em termos históricos. Já conheceu o autoritarismo, crises econômicas, impeachments, conflitos institucionais e tentativas de questionamento do sistema democrático, mas também demonstrou uma notável capacidade de sobrevivência.

A questão essencial, portanto, não é saber se o Brasil voltará a experimentar crises. Ele as experimentará, porque nenhuma democracia dessa dimensão, submetida a semelhantes tensões sociais, institucionais e ideológicas, pode aspirar a uma estabilidade permanente. A verdadeira questão é saber se suas instituições serão capazes de absorver essas crises sem destruir a si mesmas. Talvez aí esteja uma das maiores forças silenciosas do país: a capacidade de sobreviver às próprias contradições, mas também de transformar essas contradições em aprendizado institucional em vez de convertê-las em ciclos permanentes de confronto.

VIII. O VEREDITO: O PODER EXIGE AGORA DOMÍNIO DE SI MESMO

Ao final deste estudo, uma conclusão se impõe: o Brasil já não é simplesmente uma potência em formação, ele já é uma potência, mas continua sendo uma potência inacabada. Seu território lhe proporciona profundidade, seus recursos lhe proporcionam riqueza potencial, sua população lhe proporciona um mercado, sua cultura lhe proporciona projeção, sua diplomacia lhe proporciona uma voz, sua agricultura lhe proporciona importância mundial e sua energia lhe proporciona uma vantagem estratégica. O que lhe falta, portanto, não é principalmente a matéria-prima do poder; o que ainda lhe falta, em determinados momentos, é a capacidade coletiva de disciplinar esse poder, dar-lhe uma direção e garantir que suas diferentes dimensões não se anulem mutuamente.

É aqui que o olhar estoico da CPGNNews encontra seu verdadeiro lugar. O estoicismo não promete ao Brasil um mundo sem crises. Ele lhe apresenta uma pergunta mais exigente: o que fará com aquilo que não pode controlar? O Brasil não controlará as decisões de Washington, as ambições de Pequim, os ciclos econômicos mundiais, todas as consequências das mudanças climáticas, todas as transformações tecnológicas nem, evidentemente, o comportamento de seus adversários políticos. Mas pode controlar sua preparação, fortalecer suas instituições, investir em sua juventude, reduzir as desigualdades, proteger seus territórios, modernizar o Estado, desenvolver sua ciência, defender a Amazônia, diversificar suas capacidades produtivas e aprender a transformar sua diversidade em fonte de força e não em fator de fragmentação. A distinção entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende de nós é, portanto, muito mais do que uma lição filosófica. Ela pode tornar-se uma verdadeira doutrina de poder para o século XXI, baseada no domínio das variáveis internas, na resiliência institucional e na capacidade de escolher suas interdependências. Uma nação que aspira à soberania deve começar aprendendo a governar aquilo que realmente está ao seu alcance. A soberania externa sem domínio interno permanece incompleta. O Brasil não precisa tornar-se uma cópia dos Estados Unidos, da China ou da Europa. Sua vocação geopolítica consiste precisamente em construir um caminho de acordo com sua geografia, sua história e sua civilização. Mas essa autonomia não deve ser confundida com isolamento: a força não consiste em rejeitar os outros, mas em poder dialogar com eles sem perder seu centro de gravidade. O verdadeiro poder não é aquele que possui mais, mas aquele que sabe o que deve preservar, desenvolver e transmitir.

IX. A QUESTÃO BRASILEIRA

Em última instância, o futuro do Brasil não pode ser reduzido a Lula, Bolsonaro, à esquerda, à direita ou mesmo a uma eleição. Ele se resume a uma questão muito mais profunda: que tipo de civilização política o Brasil quer se tornar? Uma potência extrativa, agrícola, energética, militar, diplomática ou tecnológica? Ou algo mais difícil: uma potência completa, capaz de reunir desenvolvimento, liberdade, justiça, soberania, inovação e responsabilidade para com as gerações futuras?

A resposta não será dada por um único governo. Ela será construída lentamente, às vezes por meio do conflito, às vezes por meio do erro e às vezes por meio do compromisso. Por isso, a história do Brasil merece ser contemplada com paciência. As perspectivas de longo prazo costumam ser mais poderosas do que as paixões do momento. Os governos passam, os presidentes passam, as crises passam, os mercados mudam e as gerações se sucedem, mas as consequências das decisões permanecem. A Amazônia guarda a memória dos erros cometidos hoje, as crianças viverão com as decisões educacionais tomadas hoje, as gerações futuras viverão com as infraestruturas construídas ou não construídas hoje e as instituições conservarão as marcas da maneira como os atuais dirigentes tiverem tratado seus adversários. A grandeza política, portanto, não se mede apenas pela capacidade de vencer uma eleição, controlar uma maioria ou deixar uma marca pessoal na história. Ela também se mede pela capacidade de transmitir uma nação mais coerente, mais livre, mais justa, mais resiliente e mais capaz de decidir seu próprio destino.

Talvez esta seja a última lição estoica que o Brasil deveria contemplar: nunca possuímos verdadeiramente o país que governamos; somos apenas seus guardiões temporários. Uma geração recebe uma nação, transforma-a e depois a transmite. O Brasil possui os meios materiais para tornar-se uma das grandes potências do século XXI, mas seu verdadeiro desafio será mais exigente: deverá aprender a ser suficientemente poderoso para defender seus interesses, suficientemente disciplinado para dominar suas contradições e suficientemente sábio para não se tornar prisioneiro de seu próprio poder. Talvez seja aí que começa a verdadeira soberania e talvez seja também aí que começa a verdadeira grandeza.

O OLHAR DA CPGNNews

O BRASIL NO ESPELHO DO SÉCULO XXI

O Brasil chegou a um momento de sua história em que seu destino nacional está cada vez mais estreitamente ligado à transformação do sistema internacional. Poucos países concentram de forma tão marcada as grandes contradições do século XXI: democracia e polarização, crescimento e proteção ambiental, modernização e desigualdade, integração internacional e autonomia estratégica, abundância de recursos e uma capacidade ainda incompleta de transformar essa riqueza em prosperidade compartilhada. O Brasil, portanto, não pode ser observado apenas por meio de suas eleições, de seus governos sucessivos ou de seus indicadores econômicos. Sua importância reside precisamente no fato de que suas decisões internas terão consequências externas. Sua política climática influenciará os debates ambientais mundiais, sua trajetória econômica afetará os mercados de commodities e as cadeias de abastecimento alimentar, sua diplomacia contribuirá para remodelar as relações entre as grandes potências e a resiliência de sua democracia terá uma importância particular para a América Latina.

Por isso, a CPGNNews considera que a questão central não é saber se o Brasil possui os recursos necessários para desempenhar um papel mundial. Ele já os possui. A verdadeira questão é saber se será capaz de transformar esses recursos em instituições sólidas, prosperidade inclusiva, inovação, soberania tecnológica e responsabilidade internacional. Duas grandes trajetórias continuam possíveis. A primeira seria a de um Brasil capaz de consolidar o Estado de Direito, reduzir suas fraturas sociais, proteger a Amazônia, modernizar sua economia, diversificar suas parcerias e assumir plenamente as responsabilidades associadas ao seu peso internacional. Um Brasil dessa natureza poderia tornar-se um dos grandes polos de estabilização de um mundo cada vez mais fragmentado. A segunda seria a de um país progressivamente aprisionado pela polarização, pela desconfiança institucional, pelas dependências econômicas, pelas tensões sociais e pela exploração de seus recursos a curto prazo. Uma trajetória desse tipo enfraqueceria não apenas o Brasil, mas também o ambiente regional e internacional no qual exerce sua influência.

A responsabilidade principal pertence naturalmente aos brasileiros. As potências estrangeiras continuarão defendendo seus interesses, buscando acesso aos mercados e ampliando suas parcerias, mas nenhuma potência externa poderá substituir a maturidade institucional, a responsabilidade cívica e a visão de longo prazo de que o Brasil precisará para dominar sua própria trajetória. A verdadeira questão, portanto, não é simplesmente quem governará o Brasil depois do próximo ciclo eleitoral. É saber se o Brasil aprenderá a governar o poder que já possui.

CONCLUSÃO GERAL

O GIGANTE QUE AINDA NÃO REVELOU TODA A EXTENSÃO DE SEU PODER

O Brasil é muito mais do que uma eleição, um carnaval, uma equipe de futebol ou uma potência econômica emergente. É uma civilização continental na qual convergem a diversidade humana, a criatividade cultural, imensos recursos naturais, a inovação tecnológica, a ambição diplomática e as contradições de uma democracia em transformação. O ciclo eleitoral de 2026 constituirá um momento importante de sua história contemporânea. O primeiro turno das eleições presidenciais está previsto para 4 de outubro de 2026, com um eventual segundo turno em 25 de outubro. No entanto, as verdadeiras questões vão muito além da alternância política. A questão fundamental é saber se o gigante lusófono das Américas será capaz de transformar seu potencial demográfico, econômico, científico, cultural, energético e diplomático em um poder mundial duradouro, capaz de preservar sua autonomia estratégica e, ao mesmo tempo, assumir suas responsabilidades internacionais.

Para as Américas, o Caribe, os BRICS, as grandes potências e a comunidade internacional como um todo, compreender o Brasil deixou de ser, portanto, um simples exercício regional. Tornou-se uma necessidade estratégica para compreender os novos equilíbrios do século XXI. O próprio Brasil coloca várias das questões fundamentais de nossa época: como conciliar desenvolvimento e justiça social; como fazer coexistir proteção ambiental e prosperidade; como preservar a soberania ao mesmo tempo que se assume a interdependência; como modernizar o Estado sem enfraquecer a democracia; e como tornar-se uma potência sem permitir que o próprio poder se transforme em uma fonte de fragmentação?

O Brasil é, ao mesmo tempo, uma promessa e um alerta. Seu sucesso demonstraria que um país continental pode combinar democracia, crescimento, inclusão, inovação e responsabilidade ambiental. Seu fracasso lembraria ao mundo que a abundância de recursos, por si só, nunca garante grandeza e que o potencial, quando mal governado, pode transformar-se em um fardo e não em uma vantagem. O gigante está buscando seu destino, e o mundo o observa. A medida definitiva do poder brasileiro não estará, portanto, apenas na quantidade de recursos que possui, no tamanho de sua economia ou na influência que exerce. Ela estará em sua capacidade de transformar recursos em capacidades, capacidades em responsabilidades e responsabilidades em uma visão nacional suficientemente sólida para sobreviver às alternâncias políticas e às crises do tempo.

O Brasil possui os meios materiais para se tornar uma das potências determinantes do século XXI. Seu destino dependerá de sua capacidade de transformar potencial em poder disciplinado, poder em responsabilidade e responsabilidade em uma forma de grandeza nacional que não diminua os demais, mas contribua para uma ordem internacional mais equilibrada.

NOTA METODOLÓGICA E DOCUMENTAL

Este relatório baseia-se em uma análise cruzada de dados quantitativos, estudos econômicos e sociais, documentos institucionais, pesquisas históricas, indicadores ambientais, dados demográficos, informações eleitorais e avaliações geopolíticas relativas ao Brasil. A base documental inclui publicações e conjuntos de dados do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, das Nações Unidas e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, bem como dados e documentos produzidos por instituições públicas brasileiras, órgãos estatísticos, centros de pesquisa e organizações especializadas em análise política, econômica, social e eleitoral.

Para a análise das dinâmicas políticas e eleitorais, o relatório também considera pesquisas e levantamentos realizados pelos principais institutos brasileiros de opinião pública e análise eleitoral, entre eles Datafolha, Ipec, AtlasIntel e Quaest, quando esses dados são pertinentes à interpretação das tendências políticas. As diferentes fontes foram comparadas e contextualizadas sempre que possível, de modo que nenhuma cifra isolada, nenhuma pesquisa específica ou nenhuma interpretação estritamente conjuntural seja apresentada como uma representação definitiva de um país tão vasto e complexo quanto o Brasil.

A metodologia da CPGNNews baseia-se, portanto, em uma distinção fundamental entre os dados, sua interpretação e as projeções. Os dados descrevem uma situação observada; a análise busca compreender as relações entre os fenômenos; a projeção considera possíveis trajetórias sem pretender ter certeza sobre o futuro. Essa distinção é particularmente importante quando se trata de eleições, tendências econômicas, relações de poder ou transformações geopolíticas.

O relatório deve, portanto, ser lido como um estudo estratégico e editorial de longo prazo, e não como uma fotografia definitiva do Brasil. Os indicadores econômicos, demográficos, eleitorais e sociais evoluem; determinadas cifras podem posteriormente ser revisadas pelas instituições que as produzem; e os equilíbrios políticos também podem mudar rapidamente. A CPGNNews considera que reconhecer essa incerteza não diminui o valor da análise. Pelo contrário, constitui uma das condições do rigor analítico.

AGRADECIMENTOS EDITORIAIS

A redação da CPGNNews, CaribPulse Global News Network, expressa seu sincero agradecimento a todos os especialistas, pesquisadores, analistas, jornalistas, correspondentes, colaboradores editoriais, tradutores, parceiros e contribuintes que, no Brasil e nas diferentes regiões do mundo onde a CPGNNews desenvolve sua rede, participam da construção desta plataforma editorial internacional. Expressamos também nossa gratidão às instituições brasileiras e internacionais cujos dados, pesquisas e trabalhos contribuíram para este estudo, bem como ao povo brasileiro, cuja diversidade, criatividade, vitalidade, resiliência e capacidade de transformação constituem um dos principais objetos de reflexão deste relatório.

Este trabalho faz parte, portanto, de um esforço coletivo baseado em uma convicção simples: compreender uma nação exige observar simultaneamente sua história, suas feridas, seus recursos, suas contradições, suas aspirações e as responsabilidades que seu próprio poder lhe impõe.

PROPRIEDADE INTELECTUAL

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Toda reprodução, adaptação, tradução, distribuição ou utilização, total ou parcial, do presente relatório está sujeita à autorização da CPGNNews e deverá incluir a devida atribuição.

ABERTURA EDITORIAL

A CPGNNews permanece aberta a observações documentadas, comentários construtivos, sugestões, contribuições intelectuais e novas perspectivas capazes de enriquecer a compreensão do Brasil e das grandes transformações do século XXI. O debate não constitui uma fraqueza da análise. Quando fundamentado nos fatos, no rigor e no respeito às perspectivas divergentes, representa uma das formas mais valiosas de aprofundá-la.

RELATÓRIOS ESTRATÉGICOS CPGNNEWS

Inteligência geopolítica a serviço da tomada de decisões.

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Paris–Brasília | Agosto de 2026

Fim do Relatório Estratégico CPGNNews sobre o Brasil 2026.

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